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Genealogia da mecânica universal

A humanidade está destinada a atingir a sua perfeição

Filosofia do destino humano, questão da subida progressiva da humanidade para o extâse, o espírito absoluto - teoria tonizziana

boticelliEstávamos perto do fim do ano 1999.

Nessa altura, para me divertir na hora do almoço, escrevia curtas novelas num jardim público que ficava a alguns quarteirões da empresa que roubava então as mais bonitas horas do meu espírito criativo.

No decorrer duma dessas redacções meridionais (vivo na capital francesa do cinema) uma frase, iniciada por não sei o quê, inscru-se no meu caderno sem que eu tenha realmente feito algo por isso.

Veio assim, para alem da minha vontade, essa intuição mágica nascida como uma rosa no meio da confusão.

Essa frase intrigante – que já não o é hoje mas o foi outrora – é esta:

“A humanidade está destinada à atingir a sua perfeição”.

Depois de ter escrito essas palavras surpreendentes na minha página, tomei alguma distância para as reler mais atentamente.

Após segunda leitura, percebi o significado delas, aliás, percebi-o no meu âmago. Senti uma forte tontura, misturada com muita felicidade, como se de repente todas as luzes do meu espírito iluminavam todos os recantos de todas as salas, como se acabasse de descobrir a chave dum enorme mistério.

Foi exactamente assim que sents coisas.

Depois de anos de deambulações para procurar, aos encontrões, à luz de candeeiros de bares, verdades que me conviessem, depois de décadas infrutuosas à procura dalgum significado, de lugar ideal, e depois de estar tão convicto, resumindo, depois de todos os anos de mal-estar em que me fui questionando a pressa sem encontrar respostas, tudo ficou de repente animado de evidência, o caminho do meu coração iluminou-se como por encanto.

Desde criança, o meu feitio fazia com que me perguntasse frequentemente porquê que estávamos na terra, mas a minha natureza esfolada não conseguia ver mais além dos véus da violência que tapam o brilho de todo o significado da vida. Ignorava que para alem desse malcujas camadas são tão grossas, havia um vale aberto e caminhos ls que ofereciam o seu brilho a todos os seus visitantes.

Essa luta constante entre o que fazia sentido e o absurdo, consumia-se, sem dúvida desde muito tempo, nos limbos escuros do meu inconsciente. Acho que constituía a origem das minhas maiores angustias, das minhas fobias e das minhas estranhas tonturas.

Tinha um espírito demasiado sensível para um mundo demasiado violento, e assim dá para perceber porquê, durante todos esses anos pré-filosóficos, eu bebia de mais. é o mesmo mecanismo do que para o toxicodependente, o obeso, aquele que sofre de fobia ou de bulimia, o depressivo, o suicidário ou o anoréctico: quando reina o absurdo, os seres mais condoídos procuram isolar-se dos violentos por todos os meios.

Essa frase chegou-me então em Outubro de 1999, no banco onde estava sentado a escrever.

Depois de alguns minutos de euforia e de agradável tranquilidade, vieram-me então as perguntas adjacentes. Questionei-me logo em saber de que perfeição se tratava, porquê, quando e como essa finalidade dria realizar-se.

ceramioque art, tonizzo jean marcObviamente, eu tinha o sentimento de uma íntima relação entre a perfeição e a felicidade, mas havia tanta distância entre a realidade deste mundo egoísta e guerreiro e a felicidade universal feita de fraternidade, igualdade, amor e paz.

A partir daí, tudo correu naturalmente.

Desisti da novela que estava a escrever para mergulhar nas águas profundas dessa reflexão abissal.

Durante cerca de um mês, todo o meu ser, corpo, coração e mente, persistiram em construir o que podemos hoje considerar o esqueleto dessa teoria, a ossatura básica da mecânica universal.

A humanidade estava destinada a atingir a sua perfeição. Essa perfeição era a felicidade universal, a paz e o amor. Em suma, constituía na prática os nossos maiores desejos, as nossas mais belas aspirações e os nossos valores favoritos.

Assim, o mundo fazia sentido. A evolução humana, contida neste mundo, então também fazia sentido. Se a humanidade fazia sentido, se ela se encaminhava inevitavelmente para a sua perfeição, para além do bem e do mal, Dos erros e das hesitações, do prazer e do sofrimento, então é porque a nossa evolução era a correcta.

Deduzi então naturalmente que aquilo a que nós chamávamos o “mal” fazia sentido. Também o mal participava à evolução.

A minha tendência para provocar e espicaçar sugeriu-me então rapidamente a ideia duma igualdade de princípio fundamental entre o malfeitor e o seu juiz, entre o jurista e o criminoso. Se a perfeição precisava do bem e do mal para se construir, então esses dois conceitos eram fundamentalmente iguais, como o são o mais e o menos numa pilha qualquer.

No entanto, se o lado fundamental tem importância, a aparência também têm.

Assim, e mesmo se o bem e o mal, o juiz e o assassino, são com certeza iguais em termos de princípio, para o homem e a sociedade, os segundos tem de significar os maus exemplos, enquanto os outros representam o caminho certo sobre o qual, de facto, a maior parte dos indivíduos escolhe caminhar.

Obviamente, as coisas não são assim tão simples. Muitos juízes, por ambição, injustiça ou abuso de poder são bem mais criminosos do que aqueles malfeitores cujos destinos estão nas suas mãos (mas o Georges Brassens exprime isso bem melhor do que eu).

Ao fim de alguns dias de pura exaltação e de trabalho intenso, eu já era o “pai” dum embrião teórico que me parecia impossível desarticular.

Cada nova ideia, cada nova pergunta, cada nova descoberta, moldava-se como por magia a esse conceito positivo de evolução.

oeuvre jean marc tonizzoDevo assinalar que nessa altura do início da minha teoria, eu não era crente em quase nada mas no entanto questionava-me muito. Eu era no máximo agnóstico e ignorava tudo o que a teologia e a filosofia já tinham imaginado sobre este assunto (conhecia no entanto a integralidade das obras do Andy Cap e do Achille Talon).

Esse ponto de partida é importante porque explica por si só a alegre exaltação que senti naquela altura quando me deparei perante este novo homem pensador que hoje sou.

Esses dois últimos meses do ano de 1999, esqueci todas as futilidades habituais para me entregar 15 ou 16 horas por dia a este tema cativante

A cada nova pergunta eu achava imediatamente uma resposta, como se dum puzzle para crianças se tratasse.

Partindo da evolução da humanidade, a reflexão espalhou-se rapidamente para a evolução do ser vivo no seu sentido mais geral. Não me lembro em que livro – provavelmente foi na enciclopédia Universalis que me servia então de guia na altura – descobrlgumas frases ideais para tratar da globalidade do ser vivo a partir da espécie.

Essas frases são as seguintes: “A evolução já não é uma teoria mas sim um facto” e “O ser vivo é caracterizado pela subida gradual para um espírito superior”.

Tudo isso me parecia agora evidente.

Se o mundo estava em evolução, essa evolução seguia uma direcção, ou seja fazia sentido. O espírito superior era o amor, a felicidade, a paz…

Em poucas semanas, e de maneira completamente laboriosa, conseguira escrever algumas páginas para resumir as minhas ideias.

Escrevia frases como “A evolução mostra que melhoramos sem cessar o nosso humanismo e os nosso amor pelo próximo, ao mesmo tempo que perdemos cada vez a nossa bestialidade”.

Escrevia também “O mundo não cria aquilo que não lhe serve. Sem Neandertal não haveria homem, sem criminoso não haveria possibilidade de sair do lado animal, de melhorar a nossa humanidade e aperfeiçoar a justiça humana”.

Também escrevia “Como estamos sempre a evoluir para o bem, a justiça é sempre a melhor no presente, ao mesmo tempo que se pode sempre aperfeiçoar”.

Escrevia “Como uma grande caravana que anda num paraíso desconhecido, para se unificar, o homem segue o seu caminho a tactear. Seguir caminhos errados acontece inevitavelmente, essas passagens existem para encontrarmos o nosso caminho”.

Ainda escrevia “Qualquer força negativa que exista no planeta provoca a sua própria emenda por uma força superior ainda”.

Em suma, conseguira completar 5 ou 6 páginas, e essas continham os esboços da minha teoria.

Marcel Duchamp fontaine urinoir, R MuttNesse momento, já não sabia como fazer. Tinha a sensação de deter uma ideia importante mas que era preciso desenvolver e explicar por escrito para poder oferecê-la ao mundo inteiro. No entanto, estava consciente das minhas deficiências (lembre-se que eu não tinha então nenhuma noção sobre filosofia ou teologia)!

Então, decidi enviar essa meia dúzia de páginas de ideias desordenadas aos que me pareciam ser os actores fundamentais da filosofia, da crítica e do pensamento naquela altura.

Estou a falar, obviamente, de alguns filósofos franceses que apareciam com regularidade na televisão e de vários semanais famosos e revistas intelectuais frequentemente expostas na prateleira central das bibliotecas (sobre espírito, critica, era da modernidade).

Vou contar-vos o que aconteceu quando, com 30 cópias do que tinha escrito nas mãos, me preparava para as enviar a essas pessoas famosas.

Estava nos correios. Segurava os envelopes que continham essas cópias semi-enfiados na ranhura da caixa de envio apropriada. Não me atrevia a largá-los perante o receio que eu tinha das consequências de esses envios. Será que eu ia passar por louco? Essas ideias que eu escrevera, que me pareciam extraordinárias, não iriam abalar demasiado o mundo?

Imaginem o quanto ignorante eu era, e o quanto o meu ego estava inchado naquela altura!

Hesitava então, mantendo as pontas dos envelopes presas na mão, quando me lembrei duma das conclusões dessa filosofia: “já que nenhum acto pode ser refeito, e já que a humanidade, para além dos seus erros e falhas, evolui para a sua própria perfeição, então o que foi feito é porque devia ser feito dessa maneira”. Uma vez que uma ocorrência tinha sido realizada, passava a ser coerente para a humanidade. Se nós fizemos algo nalgum momento e de alguma maneira, é porque devíamos agir dessa maneira.

Tenho de confessar que quando descobri esse conceito, senti um grande alívio em relação a educação algo caótica e excèssiva que deos meus filhos.

Uma parte do meu espírito ficou então desbloqueada. Essa parte do meu espírito dizia “Pronto, agora não vou pensar em mais nada. Se os meus dedos se abrirem para soltar esses envelopes e deixá-los seguir até aos seus destinatários, então é porque era necessário eles abrirem-se e era necessário as cartas chegarem. Se os meus dedos se mantiverem apertados, terei de levar isto tudo de volta para a casa!”

Esvaziei então a minha mente e deixei os meus dedos obedecer à minha cabeça vazia.

Soltaram os envelopes!

Foi então que começou outra coisa…

Primeiro, senti uma angústia constrangedora.

O pânico de ter cometido algo que já não podia remediar.

Depois, lentamente, com a ajuda da teoria e o sentimento de ter feito aquilo que tinha de ser feito, esses receios foram-se desvanecendo e o meu espírito abriu-se para uma estranha alegria.

Pouco a pouco, esse sentimento de bem-estar e a sensação de ter cumprido o meu destino ganharam muita força. é como se eu tivesse concluído a minha existência. é como se eu tivesse dado à vida tudo aquilo que ela esperava de mim.

Chegue casa num estado completamento esquisito, invadido de amor, de compaixão, de doçura. do meu corpo, tinha fugido qualquer tipo de dor. Sem o saber, tinha entrado num estado delicioso e doce de deleitação permanente, naquilo a que chamamos o “despertar”, o êxtase ou o beatismo.

O meu sorriso não se apagava, impunha-se como o representante da minha alma. Eu era incapaz de fazer outra coisa senão deliciar-me de prazer com cada célula do meu corpo que se harmonizava com todas as outras células.

Tudo em mim vibrava ao ritmo da alegria. Respirar, engolir, tocar, mover-me, sentir, alimentavam a cada momento em mim um gozo subliminal, platónico e invariável.

Não conseguia reflectir, nem visualizar-me em qualquer etapa futura. Não conseguia pensar no meu passado. Estava completamente imerso num tempo imediato presente e perpétuo.

Paul Gauguin, autoportrait au chapeauEsse estado era completamente novo para mim e nunca mais me aconteceu desde essa altura. Não fazia a mínima ideia do que me estava a acontecer nem conseguia questionar-me de todo sobre esse assunto.

Só identifiquei esse estado bem mais tarde, meses depois dessa experiência, como uma experiência de êxtase.

Essa sensação de satisfação absoluta, de serenidade e de amor durou cerca de uma semana.

Descrevo-a para vós tal como eu a senti.

Antes disso, preciso dizer algumas palavras sobre este assunto.

Não considero esta experiência de êxtase como uma experiência “sobre-humana” ou “supra-terrestre”. Ela não fez de mim um “sábio” nem me transformou em “ser superior”, em “eleito dos deuses” ou em “guru decoroso”.

Atingir o êxtase – isso sem falar nos casos em que é alcançado após uma vida de ascetismo – é relativamente frequente, no meu ponto de vista.

Grande parte dos humanos experimenta esse estado de bem-estar absoluto um dia ou outro, nem que seja por um br momento.

Esse estado também se alcança no orgasmo sexual, no entanto esse momento é demasiado fugaz para percebermos toda a sua importância.

Também se atinge no estado de “morte iminente” (de volta a vida, muitas pessoas falaram de uma luz apaziguante, de amor, de serenidade absoluta).

Mas a maior parte dessas experiências não saem da intimidade. São caladas pelas pessoas com receio de serem chamadas de loucas ou de visionárias…

A “experiência súbita de êxtase” tem de ser diferenciada da “busca propositada do estado extático”.

Com efeito, o êxtase involuntário e br é uma coisa, e o facto de passar uma vida na busca desse estado superior – como é o caso dos monges tibetanos, zen, cristãos ou dos ascetas hindus – é outra coisa.

A esse nível de busca, evidentemente, os anos de restrição ou de orações, os anos de ascetismo e de concentração, a exigência de muitas renúncias, moldam um indivíduo completamente diferente. Conduzem ao mais alto grau da sabedoria, ao patamar mais elevado do psiquismo humano, segundo nós.

Mesmo se a sensação de realização, de felicidade absoluta, de amor profundo e de osmose total vivida no êxtase não tem nada a ver com o que o mundo ordinário chama “felicidade”, “êxtase” e “amor”, essa experiência específica é mesmo assim terrestre, é carnal e neuronal.

Quando abordamos a filosofia sob um ângulo místico, a experiência extática parece estar mesmo ao centro dos assuntos das suas obras escritas.

Dos filósofos gregos que precederam Sócrates até Platão, de Aristóteles até Bergson, da filosofia medieval até Espinosa, Kant e Hegel, parece-me que o êxtase faz parte de muitas das ideias e das palavras escolhidas

No entanto, são raros os filósofos que falam do êxtase directamente, como Plotin ou Jean-Jacques .

Vivi essa experiência alguns meses depois de ter descoberto os esboços do que é hoje a mecânica universal.

Vivi-a por acaso, sem ter consciência da sua importância.

Não me trouxe mais do que o misticismo que já tinha alcançado depois daquelas semanas de trabalho intensivo, de exaltação criativa e de reflexão teleológica.

A ideia de que a humanidade estava a evoluir gradualmente em direcção ao amor absoluto, ao êxtase, tinha simplesmente acrescido a possibilidade dum princípio criador acima do niilismo contra o qual ela lutava.

A minha fé, em suma, é das mais pragmáticas.

A minha pequena experiência de êxtase não tem mesmo nada a ver com todo o esboço desta filosofia, no entanto trouxe-me uma clareza e uma maior transparência na compreensão de todos estes mecanismos.

Foi uma ajuda preciosa durante toda a reflexão sobre a consciência e a finalidade, também fez com que percebesse com mais profundidade as obras de Platão, Plotin, Espinosa, Parménides, Santo Agostinho, Lao Tseu, Al Kindi, Averroes, Kant ou Hegel... (filosofia portugaise Pedro da Fonseca, Damião de Góis, José Gil...)

Para terminar esta introdução biográfica sobre a génese da mecânica universal, diria que saí desse estado extático tal como nele entrei. Uma pergunta atravessou-me então o espírito, espírito que a bem dizer tinha ficado vazio durante toda a semana de êxtase.

Perguntei-me se o que eu tinha escrito e enviado pelo correio, de forma tão rudimentar, era de facto realmente legível, se tinha coerência e era inteligível, pois eu enviequilo tudo no meio da minha exaltação e sem reler.

Pouco a pouco, essa pergunta tirou-me do meu torpor. Fui ligar o computador que tinha ficado desligado durante toda a semana (tal como a televisão, o rádio, ou seja tudo que não estava no mesmo ritmo do que a minha estranha lentidão) e abr pasta que continha a teoria. Tive que fazer um grande esforço de concentração para ler essas linhas. Quando chegueo fim da primeira página, senti crescer muita ansiedade e angústia. Estava a tomar brutalmente consciência que esse trabalho estava terrivelmente mal escrito e demasiado brutal para merecer um interesse qualquer.

Assim, rapidamente fiquei extraído desse estado de deleite absoluto que é o êxtase. Deparei-me de novo e com uma velocidade incrível com todas as sensações versáteis e as pequenas dores do meu corpo. Todos aqueles pequenos mal-estares, aquelas dorezinhas subtis, e sobretudo o medo, a dúvida, as inquietações, as exaltações e a agitação que caracterizam o meu estado natural e sóbrio.

A partir daí (estávamos perto da passagem ao ano 2000) entrei sem o saber – e hoje posso dizê-lo, definitivamente – na filosofia.

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