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Filosofia da história - O Homem, a evolução, a humanidade e o progresso
Mécanique Universelle — versão portuguesa

Filosofia, religião e teleologia

As tendências negativas humanas falsificam o progresso

niki de saint phalleA parte da filosofia encarregada de reflectir sobre o sentido da humanidade, sobre o seu destino, chama-se a filosofia da história.

Também podemos falar de teleologia ou ciência das finalidades do homem.

Esse conceito de teleologia encontra-se pela primeira vez na filosofia de d'Aristoteles. Mas é com o judaísmo que o conceito de uma finalidade última e positiva da humanidade se forma realmente (a vinda da Jerusalém terrestre e depois celeste).

Essa ideia será aprofundada mais tarde, com o cristianismo e o conceito de apocalipse.

Obviamente, todas essas “paternidades” são relativas. As grandes ideias são frequentemente frutos de ideias que circulam no ar do tempo e sem qualquer tipo de autoria particular. De qualquer modo, a potência criadora e espiritual do quinto e do quarto século anterior à nossa era, foi enorme.
Essa época viu resplendecer os ESOTERISMOS da ÍNDIA e do EGÍPTO, o judaísmo, o budismo e a filosofia GREGA; por outras palavras, viu emergir as maiores forças, que levaram a ideia de uma potência criadora única e ao desenvolvimento das maiores experiências extáticas.

Podemos já assim distinguir uma posição teleológica no “Banquete” de Platao. De facto, nessa obra, vemos o amor evoluir progressivamente, do desejo primário até ao êxtase. Mas Platão parece interessar-se, em prioridade, ao indivíduo. Os monoteísmos, pelo contrário, sob os impulsos do judaísmo, estão virados para a evolução da humanidade no seu conjunto, e parece-me que isso é que é novidade.

Mais tarde, apoiando-se na Bíblia, os maiores pensadores cristãos Saint-Augustin, Saint-Thomas, mantiveram essa visão teleológica da humanidade.

Mas a primeira verdadeira análise científica do destino humano foi efectuada com Kant.

Ele é um dos primeiros que observou meticulosamente a evolução geral da humanidade sem que a Bíblia fosse o ponto de partida, mas sim os fenómenos históricos e científicos.

Hegel perpetuou essa visão teleológica, envolvendo, segundo me parece, o materialismo (ou seja a realização da história, a realização do absoluto) e o idealismo (o próprio absoluto).

Os maiores sistemas ideológicos e utópicos do século XIX – socialismo, anarquismo, etc. – e os seus pensadores – Saint Simon, Owen, Marx, Fourier, Comte - apoiando-se, quase todos, sobre as teses de Kant et de Hegel, interessaram-se principalmente aos resultados materiais e sociais da evolução humana, e militaram para a sua realização concreta e rápida.

Essa visão positivista e militante do destino humano abriu assim caminho ao desejo de acelerar o decurso da história pela força, de libertar brutalmente o homem das suas alienações, de construir um mundo ideal pela revolução.

Trata-se de um desejo realmente humano, respeitável e generoso, mas constata-se que leva à uma aberração, como o mostrou o fracasso do comunismo.

 

Impasse da filosofia da história

O facto de que os homens tirem pouco proveito das lições da História é a lição mais importante que a História nos ensina Aldoux Huxley

jean marc tonizzo ceramique, vallaurisSe, no que diz respeito ao FUNDAMENTO, as maiores filosofias ligadas à grande corrente da filosofia da história (Kant, Hegel, Marx, e até aos filósofos contemporâneos Fukoyama) têm uma visão justa da finalidade da humanidade (a paz universal, a realização do espírito, a DESALIENAÇÃO do homem, o FIM da história, etc.) essas filosofias estão por vezes erradas no que diz respeito à FORMA.

O motivo é que essas filosofias são pensadas por homens e que o homem não é perfeito. Por vezes, o seu egoCENTRISMO, a sua exaltação ou a sua IMPAciência podem turvar a sua visão.

Várias coisas, na minha opinião, conduzirem uma grande parte da filosofia da história para certos impasses.

a/ Primeiro, foi a estimação errada do tempo necessário para a evolução se realizar.

Escandalizados pela crueldade e a injustiça humana, apressados para ver as coisas realizarem-se enquanto ainda fossem vivos, certos homens, certos filósofos, queriam alterar brutalmente o mundo, conduzi-lo à perfeição de um dia para o outro. Foi o tipo de pensamento que motivou as maiores revoluções. A revolução foi, até agora, o único meio capaz de penetrar as herméticas mentes de certos dominantes. Mas trata-se aí de um meio radical de evolução, que está na origem de muita violência e de uma aceleração demasiado viva da sociedade *. É necessário, na minha opinião, de sempre lhe preferir a revolução das consciências (Gandhi, M. L. King).

Certos filósofos, levados pela exaltação e um certo egocentrismo, podem imaginar que pertencem ao tempo em que a humanidade está perante a sua realização completa. Estimar erradamente o tempo lógico do desenvolvimento humano (de facto, trata-se mais de uma sobrestimação do presente) foi o erro de Hegel, que pensava o seu momento napoleónico como o cume da evolução.

Reencontramos essa sobrestimação do presente mais perto de nós, com Francis Fukuyama, que parece ver no fim do dualismo este/oeste e a apoteose da democracia liberal, o ponto final dos progressos da história humana.

(Este erro de sobrestimação também se d encontrar, estou consciente disso, neste trabalho… apressado como estou de ver as primeiras luzes de um mundo de paz aparecer enquanto eu for vivo…).

* É o caso, por exemplo, dos revolucionários do século XIX, que quiseram impor valores transcendentais como a igualdade, bem antes de a consciência humana os poder realmente aceitar.

b/ Depois, houve a negligência do sentido espiritual de uma tal realização histórica.

Para reagir à uma IGREJA demasiado presente na área do PODER, uma igreja com uma espiritualidade por vezes corrompida e arcaica no seu pensamento, certos filósofos focaram a sua atenção sobre a parte materialista da evolução, em subestimando a sua vocação espiritual.

Somos (o Ocidente) os filhos desse tipo de pensamento.

Se essa óptica tem a vantagem de acelerar o progrèsso técnico e industrial, o CONFORTO, o acesso ao PRAZER e aos lazeres, à libertade de pensar, de agir e de criar, sem verdadeira reflexão espiritual, sem acordar nenhum lugar à espiritualidade, esse tipo de evolução conduz infelizmente ao absurdo e à dominação do sistema dos objectos.

O homem, para esse tipo de evolução, fica reduzido ao conjunto dos seus órgãos, ao seu valor pecuniário ou à sua aparência. Não pode encontrar nenhum verdadeiro sentido à sua existência.

O homem é um ser espiritual. O regresso ao religioso depois de tantos anos de comunismo nos países de leste é o perfeito exemplo disso. O esmagamento espiritual feito pelo mercado, que marca as últimas décadas, conduz, como sentimos hoje, à um verdadeiro impasse.

Se a religião foi muito frequentemente o ópio dopovo (hoje, é o mercado) o mundo perde o seu equilíbrio mental sem a espiritualidade.

 

Lógica da filosofia da história

“O futuro foi criado para ser alterado.” Paulo Coelho

É fácil, para um filósofo teleólogo, pensar o seu presente como um género de topo da civilização, um apogeu às portas do paraíso (o contrário também é verdade).

Ao que parece, haverá um dia em que filósofos poderão dizer isso com toda a razão.

Pelos vistos, ainda não é o nosso caso.

Nós, pelo contrário, temos de nos libertar dessa divagação egocêntrica.

A história parece dar-nos os meios necessários para isso.

De facto, basta analisarmos certas lógicas da evolução para ter uma indicação sobre o trabalho que ainda há por fazer pela humanidade, antes de atingir esse funcionamento universal tão desejado por Immanuel Kant.

Por exemplo, depois de se ter espalhado por todo o planeta, a nossa espécie, há algumas dezenas de milénios, iniciou um género de lento processo de reunificação

Passamos da tropa à tribo, da tribo à cidade, da cidade ao país, do país à NAÇÃO, e, actualmente, os países e as nações agrupam-se à volta de um FUNCIONAMENTO CONTINENTAL (a Europa, a Ásia, a Africa, a América).

Essa fase continental parece representar um prólogo à um FUNCIONAMENTO universal que muitos PACIFISTAS e universalISTAS fazem votos de ver estabelecer-se.

A etapa na qual estamos, a etapa continental, parece que ainda tem de se construir através do antagonismo e da violência, porque ainda não aprendemos à utilizar a osmose, o partenariado, o mutualismo. Mas trata-se de uma etapa indispensável, antes de aceder à um funcionamento global (funcionamento esse, que seria, pelo contrário, prometedor de paz, de justiça e de fraternidade) …

Essa forma de evolução violenta, apesar de não a desejarmos, parece estar na realidade totalmente coerente com um psiquismo global humano, ainda fortemente impregnado de desejo de competição, agressividade e inovação.

e a construção das grandes comunidades – europeia, africana, americana, asiática – é uma forma ideal, para as próximas gerações, de o expressar.

 

O mal e o progresso

“Somos reticentes aos assassinatos particulares, mas permissivos quanto aos genocídios e resignados ao assassinato geral, biologico.”V. Forrester

Para poder imaginar um sentido à evolução da humanidade, temos de conseguir ter uma visão histórica bastante alargada.

De facto, se nos contentamos em observar os resultados do progresso à escala das escassas décadas à volta da nossa EXISTÊNCIA, torna-se impossível distinguir a mínima orientação da evolução.

Por outro lado, uma visão de curto prazo impede-nos de recolocar os altos e baixos naturais e as regressões pontuais da evolução no conjunto progressivo da humanidade.

Por exemplo, logo no fim da primeira guerra mundial, assim como no fim da segunda, era impossível falar de progressos positivos.

Estupefacto por impensáveis monstruosidades perpetradas graças aos progressos e à tecnologia, o homem já não podia considerar o desenvolvimento técnico como algo bom para a humanidade.

Porém, o progresso não está posto em causa nessas horríveis desumanidades (o genocídio do Ruanda mostrou-nos isso) são antes certas tendências humanas que driam ser incriminadas. É o instinto DE dominação, de segregação e atitude de predador, o desejo de hegemonia e a capacidade em utilizar as últimas invenções para FINALIDADES PERVERSAS, que dria ser acusado.

Da mesma maneira, se observamos, por alto, as últimas três décadas ultraliberais sob o todo poderoso mercado, podemos julgar esses anos regressivos sob o plano moral, social, ecológico… mas quando temos em conta o verdadeiro nível de “humanidade” atingindo pela humanidade (e não o nível que julgamos ter atingindo) e quando recolocamos essas três décadas dentro da grande história da evolução, e mais particularmente na GRANDE SUBIDA da humanidade PARA a sua UNIFICAÇÃO, esses anos caóticos, compulsivos e injustos, fazem então sentido.

Obviamente, desde sempre, o progresso cont riscos. As primeiras ferramentas de sílex continham nelas próprias a capacidade de levar os primeiros homens a MASSACRAREM-SE MUTUAMENTE. Essas ferramentas eram capazes de conduzir a humanidade a extinção.

Além de todos os benefícios que dele resultam, o progresso contém então certos riscos e cria uma quantidade de incidentes, de complicações, de receios e de perigos, e então, também desilusões e decepções.

 

O império das nossas pulsões (medos, surdez, agressividade, desejo de dominar…) transborda frequentemente da nossa consciência e vira a tecnologia contra nós próprios e os nossos semelhantes.

O nosso instinto DE dominação e as nossas TENDÊNCIAS predadoras ainda são muito fortes e, por vezes, desviam as nossas invenções do seu objectivo principal para as orientar para finalidades autodestrutivas e perigosas.

O progresso, dando a possibilidade de ser usado pelo homem para matar ou provocar a morte dos seus semelhantes responsável por muitos ultrajes, por vezes empurra muito a nossa espécie para baixo, na hierarquia pacifista do ser vivo, abaixo dos herbívoros ou das baleias… (não esqueçamos que partilhamos com certos predadores, como o leão por exemplo, a triste capacidade de matar os próprios filhos, como já tinha percebido muito bem a mitologia…. – Ver Hércules).

 

A questão do sentido

Para onde vamos ?

Depois de ter sido posta de lado durante mais de um século, será que a questão do sentido da humanidade ainda tem uma possibilidade de voltar a iluminar os caminhos neuronais sinuosos da filosofia?

Sabemos que ainda é extremamente difícil avançar com certezas quanto a realidade do progresso humano, pelos menos se queremos dar um sentido POSITIVO a esse progresso. Também sabemos que, observado sob um certo ângulo, o mundo material pode ser considerado como uma ilusão, e isso inclui obviamente a evolução.

Para poder avançar algumas evidências, tínhamos de dispor de uma visão totalmente clara da nossa história. Perceber bem todas as suas etapas entre os começos da humanidade até o que a humanidade é hoje:

  • Seria necessário ter uma visão precisa das condições de existência no tempo das primeiras hordas humanas, no tempo das primeiras civilizações. Estudar, sem romantismo, as condições de vida na altura da Antiguidade EGÍPCIA, GREGA, e depois rOMANA. As condições globais de existência na altura da IDADE MÉDIA, da REVOLUÇÃO FRANCESA, no inicio do CAPITALISMO, e depois as condições de vida no início do século XX, etc.
  • Seriam necessários não só elementos técnicos para medir as maneiras de viver em diferentes alturas, bem como uma visão precisa do estado de espírito global do ser humano nesses diversos momentos da CONSTITUIÇÃO da humanidade.
  • Seria necessário que pudéssemos comparar as relações afectivaS, FAMILIARES, sociais, EDUCATIVAS, a evolução das condições sanitárias, medicais, jurídicas… a cada momento da evolução, ente os primeiros homens e os homens de hoje.

O homem, em todo o caso, está cheio de recursos. Dispõe de um futuro técnico e criativo insuspeitável. Quando for altura, para a humanidade, de se debruçar de novo sobre o seu destino, a filosofia e a ciência tratarão massivamente disso, com a ajuda de muito mais material do que aquele de que Kant ou Hegel dispuseram.

 

Em resumo

Já existe hoje, sem dúvida, uma posição mediana entre a POSIÇÃO RELIGIOSA, que tem uma ideia positiva mas por vezes preocupante da nossa finalidade (o apocalipse e o último julgamento, por exemplo) a POSIÇÃO REVOLUCIONÁRIA, que aponta para o fim da alienação, da guerra, do egoísmo, mas quer impor isso pela força, e a POSIÇÃO NIILISTA, que recusa qualquer reflexão a longo prazo e propõe uma vida feita de imediato e de prazer individualista. As consequências de uma tal evolução já são bem visíveis hoje (desastres em muitas zonas do planeta, regresso aos valores primatas, atitudes absurdas e compulsivas…).

Podíamos imaginar uma reflexão consciente sobre um possível e desejável destino humano, sob as luzes da sabedoria.

É por isso, no meu ponto de vista, que a humanidade vai em br apelar a novas reflexões filosóficas a propósito do destino humano.

2001

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Ce n'est pas une utopie. C'est une trajectoire déjà visible, inscrite dans l'histoire depuis le premier primate. Lentement. Imparfaitement. Mais dans une direction.

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