Uma deficiência da empatiaA infelicidade da igualdade é que só a queremos com os nossos superiores... H. Becque
Como acabamos de vislumbrar, a equidade na sua versão «negativa», utiliza por vezes as desigualdades físicas ou intelectuais, para abusar do outro.
Se as desigualdades de forma (as diferenças de potencial) permitem construir a humanidade, as desigualdades de fundo (as diferenças de tratamento humano entre os indivíduos) são injustiças — infelizmente ainda úteis.
O narcisismo é um dos grandes geradores de injustiça. Utiliza as desigualdades de forma para cavar as desigualdades de fundo. Apoiando-se no princípio de equidade, este estado de espírito tenta fazer desculpar os seus abusos. Toma as desigualdades naturais por desigualdades de fundo.
Graças a este estado de espírito, justifica por exemplo a escravidão, a negligência de certos seres humanos, a sujeição daqueles que considera sub-homens, indivíduos cuja vida é insignificante e de quem pode dispor à sua vontade (o narcisismo considerando-se a si próprio essencial na terra).
Hoje, a humanidade coloca a igualdade de fundo no cume dos seus valores morais e espirituais. Quando um indivíduo considera certos dos seus semelhantes como «negligenciáveis», maltrata portanto este valor.
Todo o ser humano que se considera fundamentalmente superior ao outro é necessariamente inferior àquele que se considera seu igual e age assim.
Em todo o caso, para os futuros níveis de consciência, este género de estado de espírito será considerado como uma patologia. Os nossos descendentes farão dele uma espécie de invalidez da sensibilidade. Uma impotência empática. Segundo eu, a propensão a negar a existência, as qualidades e as necessidades do outro provém antes de mais do narcisismo.
Águia podes ser e subir o mais alto possível, nunca atingirás a impesanteza, será necessário voltar a morrer na terra onde o verme da terra morre. Jean-Marc Tonizzo
A psicanálise (Freud em particular) faz do narcisismo uma perversão. Esta deficiência de empatia é um problema crucial para a humanidade. Atinge o indivíduo como o grupo. Dirige tanto o homem como o seu governo. A sua sobrevivência mantém viva todas as formas de escravidão — aqui como em todo o lado, em todo o tempo como em todo o lugar e em relação a todas as comunidades.
O narcisismo permitiu (e permite ainda) o abuso das mulheres e das crianças por patrões pouco escrupulosos. O abuso do povo pela elite discriminante. A alienação dos operários por empregadores imorais. A colonização abusiva. A espoliação da palavra do povo em democracia. O saque das matérias-primas nos países vulneráveis (que lança na miséria milhões de seres humanos). A venda de armas a países vulneráveis. A devastação dos povos pelas máfias. O assassínio de inocentes pelo terrorismo. O desvio de fundos pelos dominantes. O expansionismo guerreiro, o racismo, a surdez industrial em relação ao planeta, etc.
E evidentemente esta negação do outro permitiu o holocausto. A decisão fria de assassinar um povo inteiro. Trata-se também de um dos resultados do narcisismo — a faculdade de considerar o outro como humanamente inferior.
Esta propensão existe no norte como no sul, a leste como a oeste. Exerce-se de homem a homem, de grupo a grupo e no interior dos grupos. Permite-nos abusar de tal, mas permite a tal outro abusar de nós.
O conhecimento desvaloriza o narcisismo«A ciência infligiu ao egoísmo ingénuo da humanidade um grave desmentido. Foi quando mostrou que a terra, longe de ser o centro do universo, não forma senão uma parcela insignificante do sistema cósmico cuja grandeza dificilmente podemos representar. Esta primeira demonstração liga-se para nós ao nome de Copérnico, embora a ciência alexandrina já tivesse anunciado algo semelhante. [...] Um desmentido será infligido à megalomania humana pela investigação psicológica dos nossos dias que se propõe mostrar ao ego que não é sequer senhor na sua própria casa, que se vê reduzido a contentar-se com informações raras e fragmentárias sobre o que se passa, fora da sua consciência, na sua vida psíquica.» Freud, Uma dificuldade da psicanálise
2001 — o estrangeiro
Ce n'est pas une utopie. C'est une trajectoire déjà visible, inscrite dans l'histoire depuis le premier primate. Lentement. Imparfaitement. Mais dans une direction.
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