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Do animal ao homem — educação e crueldade
Mécanique Universelle — versão portuguesa

Do animal ao homem

Educação e crueldade

gravure médiévale,  représentant une scène de tortureO ensino das regras morais

O que se escolhe como filosofia depende assim do homem que se é. Johan Gottlieb Fichte

A crueldade (no sentido patológico do termo) poderia definir-se assim : Persistência jubilosa de um indivíduo sobre a sua vítima apesar das súplicas desta. Assim denominada, esta perversão parece pertencer exclusivamente ao género humano. Com efeito, no seio de uma mesma espécie, a maior parte dos animais para naturalmente toda a violência aos primeiros gestos de submissão do dominado, obedecendo a uma espécie de instinto do bem, uma moral instintiva.

A crueldade apareceria portanto no seio da humanidade quando a perda deste instinto moral não é compensada pela moral humana — e o homem parece efetivamente ter perdido esta espécie de benevolência instintiva. Perdeu-a porque ao civilizar-se, a humanidade aniquila pouco a pouco os seus reflexos primates.

Dos instintos ao direito, à lei

Progressivamente os nossos instintos transformaram-se em códigos, em legislações, em educações. O instinto que limita a violência na natureza tornou-se no homem uma moral aprendida... não farás mal ao teu próximo... não abusarás dos mais fracos... não baterás num homem caído.

A moral humana ensina-se através da educação. É enquadrada por leis que proíbem todo o ato de violência contra o outro. Sensibilidade, compaixão, piedade e consciência do outro vêm juntar-se a estas regras de conduta. Os sentimentos humanos de empatia, entreajuda, amizade, generosidade, etc., encontram a sua origem no mundo animal. Mas só a nossa espécie os elevou a esta altitude. Este conjunto socializante limita a nossa violência.

Já não é um instinto como tal que para a nossa cólera quando um adversário o reclama. São limitações culturais, preceitos ensinados, qualidades empáticas desenvolvidas durante a infância, às quais se acrescenta o medo da sanção.

As gerações mais antigas conhecem todos estes preceitos populares que regulavam as brigas nos recreios — «não se bate em alguém que está no chão», «deve-se parar o combate quando o adversário pede clemência». Estes imperativos limitavam a violência quando estas regras morais ainda eram respeitadas... daí a importância maior de ter líderes de opinião imbuídos destes valores fundamentais — o que não é o caso hoje.

A isso acrescenta-se a nossa sensibilidade, a nossa capacidade de imaginar e de sentir, de certa forma, os sofrimentos do outro.

O fim da guerra sendo a destruição do Estado inimigo, tem-se o direito de matar os seus defensores enquanto têm as armas na mão ; mas logo que as pousam e se rendem, deixando de ser inimigos ou instrumento do inimigo, tornam-se simplesmente homens e já não se tem direitos sobre a sua vida.
Jean-Jacques Rousseau, Do Contrato Social.

A importância da educação

 photos du procès de Nuremberg et des accusés naziDa falha educativa. Os perigos da má educação

Por vezes, os valores humanos e a empatia faltam ou extinguem-se num indivíduo. Se este também não teme a sanção, a violência pode então tornar-se extrema. É assim que certos homens afundam (e por vezes fazem afundar a humanidade) na mais infame barbárie.

Podemos assim medir a importância da educação para a ética humana na nossa espécie. A importância de manter as estruturas morais destinadas a gerir a nossa violência. Por outras palavras — a educação moral, as regras de respeito humano, a aptidão empática e o regime de sanções.

Um mundo contemporâneo desorientado

A humanidade contemporânea tem, parece-me, um problema com a crueldade. A sua consciência já não parece apta a desmascarar a perversidade ou a manipulação subtil. Pelo contrário, o sistema em vigor mostra um exemplo de insensibilidade ao destino dos despossuídos.

É o caso quando autoriza que se possam atirar seres humanos para a rua. É o caso quando utiliza as deslocalizações para se aproveitar de uma nova escravatura. É o caso quando faz manipular o povo pelos media. É ainda o caso quando os estados encarceram os marginalizados e os vulneráveis. É o caso quando instituem a tortura psicológica. É o caso quando os governos protegem os fortes em vez de proteger os fracos (o verdadeiro herói defende sistematicamente o fraco do forte e o povo dos seus diversos predadores — adeus Robin dos Bosques, mas também o Abade Pierre, a Irmã Emmanuel, a Irmã Teresa ou o Padre Pedro).

A falha dos media

Uma demissão verbal

bande de lches qui maltraitent un homme à terreA fuga dos valores

Os media atuais têm uma grande responsabilidade nesta dessensibilização do mundo. Eis um exemplo flagrante da sua dificuldade em detetar as condutas imorais. Era no ano passado no jornal Le Monde de l'Éducation (maio de 2006). Uma legenda sob uma fotografia tirada na rua durante a crise do CPE.

Nesta imagem, vários jovens espancavam outro jovem que estava no chão.

A legenda aposta pelos jornalistas era esta : Manifestantes de um lado, desordeiros do outro.

Esta frase normalizava simplesmente uma conduta bestial e covarde. O jornal banalizava uma ação que não o é de modo nenhum para os grandes valores humanos. Jornalistas com uma consciência iluminada teriam posto em evidência o caráter amoral deste ato. Iluminado por uma frase do género : «cobardes em plena ação». Os jornalistas deveriam ter «envergonhado» estes jovens capazes de bater, e a vários, num indivíduo no chão. Como deveriam envergonhar os homens políticos, os industriais, os jornalistas, quando falham seriamente na sua missão e derrogam as regras morais. A banalização da vingança, da perversidade na televisão, acentua este processo de desmoralização.

Esta falha mediática permite a estas condutas amorais desenvolver-se em vez de regredir. As agressões a sem-abrigo filmadas ao telemóvel são o resultado desta insuficiência crítica. A isso acrescentam-se os novos valores propostos pelo mercado (venalidade, elitismo, agressividade, competição feroz, nepotismo, egocentrismo) ao conjunto do povo.

Evidentemente não se trata aqui de impor novas censuras. Parece simplesmente urgente abrir consciências.

2007

instinto-moral



 la traite des Noirs, l'esclavage, une abomination humaine

Entre o fraco e o forte é a liberdade que oprime e é a lei que liberta. Lacordaire

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L'humanité va vers l'éveil

Ce n'est pas une utopie. C'est une trajectoire déjà visible, inscrite dans l'histoire depuis le premier primate. Lentement. Imparfaitement. Mais dans une direction.

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