Da consciência moral,«A consciência é sempre implicitamente moral ; e a imoralidade consiste sempre em não querer pensar que se pensa, e em adiar o julgamento interior. Chamam-se bem inconscientes aqueles que não se colocam nenhuma questão de si mesmos a si mesmos.» Alain. As Artes e os Deuses.
Tudo correria bem no melhor dos mundos se não fosse a presença da crueldade. Esta faculdade tipicamente humana perturba a imagem do nosso caminho. Enriquece a dimensão do niilismo e do absurdo e ensombra a evolução positiva da nossa espécie.
As origens da crueldade humana situam-se verossimilmente na natureza. O seu motor decorre de certos comportamentos primates naturais (que ignoram, na maior parte das vezes, este comportamento tipicamente humano). O mecanismo poderia vir de um instinto agressivo aliado a uma ausência de empatia... Uma sobrecarga narcísica, em suma.
Mas há uma grande diferença entre a crueldade «natural» e a crueldade cultural.
O instinto condena a natureza a uma certa violência. Para o homem já não é o caso. A cultura tem os meios para erradicar os reflexos antissociais. Pode compensar as injustiças naturais e fornecer um quadro justo e pacífico à humanidade. Aliás, a nossa filosofia afirma-o : a espécie humana conseguirá dominar a totalidade dos seus instintos agressivos. É apenas uma questão de tempo.
A interrogação será portanto saber porque é que a nossa espécie não consegue suprimir esta bestialidade. Porque é que, pelo contrário, ao emergir, o espírito parece desenvolver estas atitudes perversas ? Porque é que a espécie humana supera todas as outras na expressão da sua perversidade ? E finalmente porque é que, quando os dominantes impõem as suas ideologias (aristocracias, oligarquias, ditaduras, democracias pervertidas — ultraliberalismo), a crueldade está no seu auge ?
Ao responder a estas questões, compreenderemos então o interesse de evoluir (universalmente) para uma verdadeira governação democrática na qual os dominantes trabalham efetivamente para fazer prosperar as condições do povo soberano antes das dos dominantes*.
* O que permitiria reduzir progressivamente os fossos entre ricos e pobres em vez de os acentuar, como nas ditaduras e oligarquias.
Psicose, neurose, narcisismo.A essência da ideia de justo é oferecer uma saída ao sadismo revestindo a crueldade com a máscara da justiça. Bertrand Russell
A agressividade faz parte do mundo natural e tiramos as nossas origens deste mundo. Na natureza, a ferocidade destina-se a satisfazer necessidades vitais. Comer, reproduzir-se ou defender-se. A violência é igualmente utilizada para estabelecer hierarquias. Para adquirir ou preservar poder.
No mundo natural, a agressividade é regida por instintos. É igualmente limitada por eles.
Esta expressão primária da violência existe igualmente no homem. Entre nós também, as hierarquias estabelecem-se muitas vezes através da violência.
Progressivamente, a sociedade humana reprime a brutalidade física. Ao agir assim, obriga o homem a aprender a dominar a sua agressividade. Mas esta frustração é uma coisa difícil de suportar pelo indivíduo. Ele precisa de encontrar um meio de a exprimir, de a transcender ou de a disfarçar.
Três situações se apresentam geralmente :
1/ A passagem ao ato. A pulsão é mais forte do que a ameaça da lei. É a delinquência. Na maioria das vezes conduz a uma sanção por parte da sociedade humana.
2/ A frustração. A consciência moral ou o medo do gendarme são mais fortes do que a pulsão. O homem consegue então dominar a sua violência. Transforma a sua agressividade (em ação construtora) ou volta-a contra si mesmo. É o princípio da neurose. A maioria humana está neste caso. Trata-se da norma.
3/ A perversão. A agressividade, a violência, o desejo de dominação são poderosos mas o receio do gendarme é mais forte. O indivíduo vai então procurar exprimir as suas tendências permanecendo dentro dos limites da lei. Procurará contornar os interditos ou encontrar meios legais de os exprimir. Utilizará a «manipulação», a «perversidade», a «crueldade mental», o «abuso de poder», a «degradação da imagem do outro». Frustração e perversão estão perfeitamente bem representadas no filme de Alain Resnais «O Meu Tio da América».
Evolução da violênciaPratico a auto-derrisão. A derrisão só tem interesse se a aplicamos a nós próprios. Senão, é crueldade. G. Collomb
Como a crueldade física, a crueldade mental pode aniquilar o outro. A perversão, as torturas psicológicas substituem pouco a pouco as torturas tradicionais. As grandes potências atuais mostram este tipo de evolução. Evidentemente não há motivo para se orgulhar de se ter tornado a espécie mais «perversa» do vivente.
Comparando a violência em curso na época dos Gregos com a violência do mundo atual, compreendemos o seu abrandamento. Comparando a crueldade das sociedades medievais e a crueldade das democracias contemporâneas, percebemos igualmente a sua diminuição.
A perversidade e a manipulação decorrem da bestialidade antiga. É uma passagem obrigatória na dissolução progressiva da violência no seio da nossa espécie. É o último território onde os nossos instintos negativos podem florescer antes da sua extinção definitiva (é em todo o caso o ponto de vista da nossa filosofia). Eis porque a sociedade atual suporta melhor a crueldade do liberalismo do que a crueldade da tortura. Evidentemente devemos opor-nos a todas as formas de crueldade que existam.
Hoje, a tortura mental é menos severamente punida do que a tortura física. Mas para os nossos descendentes futuros este tipo de crueldade será tão difícil de suportar quanto a tortura física o é para nós. Progressivamente a humanidade reduz a amplitude da violência física em benefício da violência «socializada». Por este longo trabalho de compressão, a humanidade conseguiu transformar um primate natural num homem «civilizado». Basta então projetar-se no futuro para pré-visualizar uma conclusão evidente. Um dia, os «humanos realizados» viverão numa humanidade liberta de toda a perversão e de toda a violência.
Nem os meios humanos, nem as larguezas do príncipe, nem as cerimónias religiosas expiatórias dissipavam o rumor de que o incêndio era de origem criminosa. Assim, para dissipar estes rumores, Nero encontrou culpados indicados que submeteu a torturas exemplares, pois os seus crimes tornavam-nos odiosos. O povo chamava-lhes cristãos. Este nome vinha-lhes de Cristo, supliciado sob o imperador Tibério pelo procurador Pôncio Pilatos. A sua funesta superstição tinha sido reprimida imediatamente mas ressurgia, não só na Judeia, foco desta peste, mas em Roma, onde se instalam e desenvolvem todas as ideias detestáveis e chocantes vindas de todo o lado. Numa primeira fase, prenderam-se os que confessavam. Na sequência das suas denúncias, uma multidão incontável foi acusada, não tanto de ter ateado o incêndio, mas de ter ódio à humanidade. A sua morte era encenada : alguns, cobertos de peles de animais, eram dilacerados pelos cães ; muitos eram crucificados ou queimados ; faziam-se arder outros como tochas para iluminar o crepúsculo. Nero tinha reservado os seus jardins para o espetáculo e aí organizava jogos de circo. Vestido de cocheiro, misturava-se à multidão ou subia a um carro. Vendo isso, apesar da sua culpabilidade que valia aos cristãos castigos exemplares, as pessoas sentiam compaixão : pensavam que os cristãos não eram executados no interesse público mas que saciavam a crueldade de uma única pessoa.
TÁCITO, Anais, XV, 44, partim.
A crueldade é um gesto de servidão : pois atesta que a barbárie do regime opressor ainda está presente em nós. Jean Jaurès
Ce n'est pas une utopie. C'est une trajectoire déjà visible, inscrite dans l'histoire depuis le premier primate. Lentement. Imparfaitement. Mais dans une direction.
☀️ Découvrir le fondement