Reflexão sobre o crime e a crueldadeNão há um único indivíduo que não seria considerado criminoso se se permitisse o que o Estado se permite. Multatuli
A monstruosidade, a bestialidade, a crueldade, a criminalidade fazem parte da evolução humana. Seria utópico imaginar a humanidade já capaz de prescindir delas. O mundo é feito de tal modo que é preciso também toda esta energia que se diz negativa para evoluir em direção à nossa perfeição.
Certos psiquismo humanos parecem incapazes de expressar empatia suficiente em relação ao outro. Submergidos pela sua agressividade, chegam por vezes a afundar na pior das loucuras assassinas. A sociedade pensa que se trata de um problema hereditário ou genético, uma espécie de fatalidade (é pelo menos o que ela dá a pensar, quando se vê a forma como negligencia o cuidado para com estes indivíduos).
Mas, segundo a mecânica universal, a responsabilidade da genética é reduzida. A culpa reverte essencialmente para a sociedade. É ela que negligencia a educação para a ética, a moral e o respeito do outro. É ela que deixa maltratar a infância daqueles que afundam na criminalidade. É ela que não toma suficientemente cedo os seus desvios e as suas carências em amor e benevolência.
Tomemos o caso do serial killer.
a/ É um assassino em série. (Mas a guerra ensina-nos que, quando a ordem é exigida, qualquer indivíduo é suscetível de se tornar um «serial killer». Esta capacidade de ignorar suficientemente o outro para interromper a sua existência é portanto bastante frequente na humanidade. O que faz patologia é a capacidade de praticar estes crimes em tempo de paz e o prazer que neles se procura).
b/ É vítima das suas pulsões.
c/ Pode ser muito inteligente. (A inteligência só, não pode portanto fazer
barreira à crueldade nem ao crime).
d/ Nenhuma
barreira moral impede as suas passagens ao ato.
Conduzir-se como se o mundo não tivesse sentido faz de nós insensatos. JMT
Eis uma interpretação estilizada do que se passa quando um indivíduo comete um ato criminal ligado à crueldade.
O serial killer avista uma pessoa. Esta estimula nele um desejo que aciona a sua energia fundamental (energia da qual concluímos nos primeiros capítulos ser de natureza amor puro).
Este amor quer exprimir-se em ato e atravessa o seu cérebro reptiliano (cérebro que transforma tudo em perigo ou em presa). Depois de ter atravessado esta zona, a energia amor deveria encontrar um setor encarregado de humanizar esta zona reptiliana. Se a humanidade negligenciou a educação deste indivíduo (portanto o desenvolvimento desta zona socializante), a pessoa corre o risco de transformar em presa o indivíduo avistado. O instinto do bem* tendo desaparecido do nosso espírito, nada mais parará a passagem ao ato do serial killer. *que na natureza para o dominante às primeiras manifestações de submissão do dominado.Quando se interrogar sobre si mesmo, o serial killer só terá resposta através das suas pulsões dominadoras e da sua inteligência fria e adaptativa. E assim, a única imagem que poderá ter de si mesmo será a de um caçador inteligente e todo-poderoso.
A falta de compaixão, de empatia, de responsabilidade moral encontrada nestes criminosos decorre das carências afetivas e educativas da sua infância.
O serial killer é portanto vítima da falha do sistema encarregado de elaborar o seu psiquismo, as suas capacidades afetivas, morais e a sua consciência do outro. A estas falhas educativas acrescenta-se uma certa crueldade engendrada pela sociedade contemporânea. Com efeito, este sistema ultramaterialista que coloca hoje o ter antes do ser engendra forçosamente comportamentos implacáveis (a sua capacidade de atirar sem escrúpulos seres humanos para a rua demonstra bem a sua natureza cruel).
O ultra liberalismo estimula nos nossos espíritos as nossas pulsões agressivas. Aumenta o nosso gosto pelo poder e pela dominação engrenando assim todos os ingredientes suscetíveis de agravar a taxa de crueldade. Ao endurecer o mundo, este sistema feroz obriga o humano a insensibilizar-se para aí sobreviver (ou a escapar-lhe pela depressão, pela compulsividade...). Daí a emergência do fenómeno serial killer (e agora baby killer) neste mundo ocidental materialista e niilista. Menos o ser humano consegue tocar a sua capacidade de amar, menos é capaz de perceber o amor do outro.
O amor que somos capazes de oferecer aos nossos congéneres não depende deles mas de nós próprios. Tal homem será capaz de oferecer a sua compaixão aos mais terríveis criminosos, tal outro só poderá odiar mesmo o seu vizinho mais gentil.
ano 2001
consciência e ciência
Todo o homem é um criminoso que se ignora. Albert Camus
Cada filosofia aspira a tornar-se a filosofia. Henri Gouhier
Ce n'est pas une utopie. C'est une trajectoire déjà visible, inscrite dans l'histoire depuis le premier primate. Lentement. Imparfaitement. Mais dans une direction.
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