Um deus que a razão dominaria não seria nem um deus pessoal, nem um deus transcendente. É ao afirmar ao mesmo tempo que existe e que a ultrapassa que a razão o conhece enquanto Deus. Jean Daniélou
A violência encontra-se ainda no centro da evolução humana. Individual ou de estado, rega o quotidiano do homem construtor. A brutalidade com que os poderes ditos democráticos fazem reprimir as manifestações populares é uma prova disso.
Para a nossa análise, vamos distinguir a humanidade em duas grandes forças complementares. De um lado os líderes, os dominantes, do outro o povo, os subordinados.
Evidentemente, esta distinção é subjetiva, mas o comportamento atual dos dirigentes para com o seu povo empurra-nos a utilizá-la. Se a democracia sana pouco a pouco as relações dominantes/dominados, estão longe de ser perfeitas. Só uma luta encarniçada permite manter um semblante de equilíbrio. Ao menor afrouxamento da resistência cidadã, os dominantes intensificam o elitismo, o nepotismo e a oligarquia. Temos um exemplo flagrante desde os anos 1980. Com a queda do comunismo, o espírito crítico ficou psicologicamente enfraquecido. Os liberais mais violentos tomaram então o poder mediático. Desde então não cessam de usar a sua omnipotência para maltratar o povo.
Existem dominantes em todas as camadas da população. Nas periferias como nas engrenagens do poder. O instinto de competição é inerente ao homem construtor. Deste instinto decorre a necessidade de dominar. Esta tendência organiza uma grande parte da sociedade humana. As circunstâncias, a educação e as predisposições conduzem apenas um pequeno número de indivíduos a tornarem-se líderes.
Neste pequeno número, a maior parte torna-se bons «chefes». São então elites benevolentes. Líderes justos e conscientes dos desafios democráticos. Dominantes capazes de colocar o seu talento ao serviço do povo.
Outros (uma minoria) hissar-se-ão para a liderança para se aproveitar do sistema, funcionar em máfia, escravizar os seus congéneres, manipular o povo, acumular riquezas e praticar o nepotismo.
Se alguns indivíduos são atraídos pela dominância, a maioria humana não está preocupada com este instinto. A massa aceita de bom grado ser governada. Esta maioria forma o que chamaremos o povo. Esquematicamente, a organização humana compõe-se ainda assim : um pequeno número de indivíduos utiliza o princípio piramidal para se afirmar e afirmar o seu clã em detrimento da maioria dos cidadãos. Quando a democracia for efetiva, será diferente. Este pequeno número de indivíduos colocará o seu talento ao serviço dos povos que os elegeram.
Da natureza ao homemA violência é a consequência da agressividade. A crueldade é a sua perversão. A agressividade decorre das nossas origens naturais. Como nos outros primates, a agressividade é naturalmente mais pronunciada no grupo dominante. O mundo dos líderes pode ser esquematizado em duas grandes tendências :
a/ A energia progressista é geradora de igualdade e de valor. Buda, Martin Luther King, Gandhi, ou filósofos como Karl Marx ou Jean-Paul Sartre são alguns dos seus líderes. A espiritualidade, a verdadeira democracia, a paz, os progressos sociais e morais, a igualdade fazem parte das suas buscas.
b/ A energia reacionária, em contrapartida, é geradora de injustiças, de violências e de crueldade. Inconscientemente visa destruir os direitos democráticos. Trabalha para o regresso das organizações primárias (autocracia, aristocracia, oligarquia, elitismo, esclavagismo, colonialismo).
Evidentemente, as coisas não são tão simples. Por vezes o progressismo engendra o mal e a reação o bem. E evidentemente também, segundo a nossa filosofia, estas duas forças, bem e mal, constroem juntas a humanidade. O seu confronto conduz pouco a pouco a nossa espécie à sua perfeição. Mas para que haja progresso, as energias inovadoras devem superar as energias reacionárias.
A governação justa, injustaA tendência ao comando pode ser destinada ao «bem» como ao mal (mas não o esqueçamos — o mal, segundo a nossa filosofia, é um auxiliar do bem).
Neste capítulo, vamos sobretudo concentrar-nos na violência institucionalizada. A violência sofrida pelos povos e iniciada pelos comportamentos agressivos dos dominantes. Este tipo de violência é o mais destruidor para as populações ordinárias e vulneráveis.
A violência dos sistemas dominantes pode ser primária (como a ditadura) ou perversa (como o ultraliberalismo). Mercantis ou paranóicos, estes dominantes sacrificam invariavelmente seres humanos. Intuitivamente, reprimem a crítica (pela força ou pela manipulação). Desenvolvem então um sentimento de omnipotência e de impunidade. Este mecanismo engendra uma certa regressão da sociedade. Regressão moral, social, educativa e espiritual (e progressão dos contrários : elitismo, nepotismo, niilismo). Recuo da alegria e do otimismo em benefício da angústia e da inquietação. Recuo das liberdades do povo em benefício dos sistemas policiais. Restauração das castas, etc.
A perversão do pensamentoA guerra é feita por pessoas que não se conhecem e que se massacram em proveito de pessoas que se conhecem mas que não se massacram. (desconhecido)
Para justificar os seus abusos, a perversão narcísica não hesita em perverter os escritos dos pensadores. Utiliza frequentemente as leis da natureza. — A natureza não conhece fronteiras. É o mais forte que obtém o direito à vida. escreveu Hitler muito antes de mandar cometer todos os seus crimes. Trata-se de uma utilização perversa do darwinismo. Este estado de espírito destinado a justificar o abuso do outro não é uma novidade. Reencontra pontos de vista antigos como o do filósofo Aristóteles, para quem «existem escravos por natureza».
Cientistas e pensadores do século XIX e XX enriqueceram os pensamentos racistas. O darwinismo social e certos filósofos (Schopenhauer, Nietzsche, Heidegger) alimentaram-no também infelizmente. É igualmente o motor principal da colonização.
A utilização das leis da natureza para justificar as condutas abusivas é uma simples manipulação. Um obscurecimento da lógica humana. Com efeito, só a nossa aptidão para romper com as leis naturais faz de nós uma humanidade. Para que nos serviria ter adquirido uma consciência, uma moral, uma ética ? Para que serviria aceder ao reino de a cultura se for para sustentar as leis da natureza ? Esta manipulação esquece simplesmente os milénios de ações culturais que lutaram contra os costumes naturais.
Na natureza, os dominantes mais robustos, mais agressivos, hissam-se ao topo das hierarquias. Impõem então as suas autoridades ao conjunto do grupo. Submetem o seu clã às suas decisões, ao seu diktat. Este mecanismo autocrático é um valor positivo para o mundo primate. Traz-lhe as qualidades necessárias à sua subsistência em meio hostil.
Mas já não é o caso para o mundo da cultura. É aliás por isso que qualificamos a autocracia abusiva de desumana. A humanidade já é capaz de viver sem esta competição feroz. O homem tem os meios para passar para uma competição lúdica e respeitosa. A nossa consciência é capaz de utilizar a simbiose, a benevolência e a partilha para evoluir. Hoje, o princípio dominante/dominado já não é o mais pertinente para o homem. Pelo contrário, age muitas vezes como um freio ao seu desenvolvimento.
ano 2001
animal-homem
No que diz respeito à limitação da jornada de trabalho em Inglaterra assim como em todos os outros países, ela nunca foi regulada de outra forma que não fosse pela intervenção legislativa. Sem a pressão constante dos operários, agindo do exterior, esta intervenção nunca teria ocorrido. Em todo o caso, o resultado não teria sido obtido por acordos privados entre os operários e os capitalistas. Esta necessidade de uma ação política geral é a prova de que, na luta puramente económica, o capital é o mais forte. Karl Marx
Ce n'est pas une utopie. C'est une trajectoire déjà visible, inscrite dans l'histoire depuis le premier primate. Lentement. Imparfaitement. Mais dans une direction.
☀️ Découvrir le fondement