Consciência do quotidiano e do extáticoNão precisarás mais de negação do que de afirmação, pois aquele cuja existência é necessária já está afirmado antes de o afirmares, e aquele cuja existência é impossível já é nada antes de o negares. Ahmad Al-Alawi (1869-1934), filósofo e místico.
A consciência pode conceber-se sob um aspeto duplo.
Para a nossa análise, distinguimos dois grandes tipos de consciência :
A consciência subjetiva percebe as coisas através do que constitui o sujeito. É o ego, o «eu», o «nós». É o estado de consciência ordinária do homem. A sua consciência em todos os casos exceto o êxtase. Esta consciência usual é composta de pulsões, de desejos, de impressões. Ressente as coisas através dos seus diversos estados de alma.
A consciência pura é uma consciência vazia de pulsões, de desejos, de recordações, de intenções, etc. É a consciência de fundo do ser humano. A consciência original e orgânica sobre a qual a consciência subjetiva vem enxertar-se. Só o estado de êxtase, de beatitude, de nirvana, permite «descer» ao nível da consciência pura.
Há portanto de um lado a consciência e do outro o sujeito consciente.
A consciência ordináriaA França tem trinta e seis milhões de sujeitos, sem contar os sujeitos de descontentamento. H. Rochefort
Para ser «consciente de si», é preciso desdobrar a sua consciência.
Em todos os momentos da vida ordinária e ativa, é a consciência do sujeito pensante que tem consciência das coisas. O homem ordinário (o homem construtor) considera ser tal ou tal pessoa. Sabe pertencer a tal ou tal sociedade, tal ou tal grupo, clube, empresa ou comunidade. A sua consciência ordinária julga, analisa, considera o mundo através de uma educação, um filtro cultural. A pessoa em mim, o sujeito que sou, interpreta os acontecimentos através de uma quantidade de estereótipos. Apreende as coisas segundo esquemas inculcados pela cultura, a educação, a linguagem... (Vejo uma árvore, é um carvalho, é grande ou pequena, é primavera, chove ou faz bom tempo, etc.). Todos estes estados de consciência, em vez de serem sentidos, são consciencializados pelo sujeito. Transformados e intelectualizados pelo «eu».
A consciência do homem construtor está permanentemente exterior a si mesma. Nunca está completamente em presa «pura» com o imediato (a harmonia, o despertar, a verdadeira consciência, única realidade verdadeira).
Evidentemente, a consciência subjetiva, a do homem construtor, está consciente de uma certa forma de realidade. Por certos lados, está em contacto com a imediatidade. Mas esta imediatidade é permanentemente atravessada pelo passado e pelo futuro. Em suma, animada por inúmeras idas e vindas na ilusão. Na ilusão pois nem o passado, nem o futuro existem no momento presente.
Estou tranquilo na minha varanda. Contemplo as árvores à minha frente ouvindo os sons comuns da natureza. Tudo está lá para me oferecer o êxtase, a beatitude. Para imergir a minha consciência no vazio e no imediato. Só que a minha contemplação (a relação direta entre a minha sensação pura e a beleza da natureza) é perturbada por imperceptíveis atividades cerebrais subjetivas (conscientes ou inconscientes).
Mesmo quando a consciência ordinária está bem posta no imediato, atividades mentais subliminares impedem o homem de aceder ao êxtase. Uma mistura de vigilância, de recordação, de projetos, de desejos, de sensações subjacentes, fecham a porta do «presente absoluto». Esta atividade corta-nos da consciência pura que, ela, está sem atividade. Impede-nos, em suma, de atingir a plena contemplação. Estas «agitações parasitárias», o sábio, o asceta, consegue extingui-las. Por rigorosas asceses e profundas meditações, evacuam-nas do espírito.
A felicidade sem preocupações, o descanso do espírito, a tranquilidade que sinto na minha varanda face à natureza, poderiam confundir-se com o estado de contemplação. Mas não é o êxtase, não é a ataraxia, a beatitude, a alegria ou o despertar de que falam os experimentadores místicos. «A alegria é a nossa evasão fora do tempo», escreve Simone Weil.
A grande contemplação. Não são as férias.Os instantes de serenidade, de alegria, de quietude sentidos por vezes no estado «ordinário» (quando estou de férias, em relaxamento) não têm portanto nada a ver com o êxtase. Nada a ver com a alegria e a serenidade imperturbável do nirvaniano.
Diferentemente do «relaxamento» proporcionado pela beatitude, o relaxamento ordinário é superficial e «mal preso». Ao menor estalo de ramo, ao menor movimento nas folhagens, à passagem de uma recordação, de um desígnio, de um desejo ou de uma vontade, a minha consciência abandona o imediato. O meu espírito põe em marcha a sua mecânica de reflexão. Parte em inquisição, em questionamento, em suposição. Desconecta-me assim das sensações de absoluto geradas por um espírito verdadeiramente vazio.
Abandonei o mastro no qual estava sentado, escreve Chateaubriand nas suas Memórias de Além-Túmulo, subi o Penfeld, que desagua no porto ; cheguei a uma curva onde este porto desaparecia. Aí, não vendo mais nada além de um vale turfoso, mas ouvindo ainda o murmúrio confuso do mar e a voz dos homens, deitei-me à beira do pequeno rio. Ora olhando correr a água, ora seguindo com os olhos o voo da gralha marinha, gozando do silêncio à minha volta, ou prestando ouvido às pancadas do calafate, caí na mais profunda fantasia. No meio desta fantasia, se o vento me trazia o som do canhão de um navio que largava, estremecia e lágrimas humedeciam os meus olhos.
O espírito do homem construtor, do homem «ordinário», é incapaz de permanecer muito tempo no vazio e no imediato. O seu corpo também não pode aguentar muito tempo parado. Pede rapidamente para agir, exprimir-se, criar. Exige finalmente construir. São precisos esforços «sobre-humanos» ao homem para se tornar um asceta. Esforços consideráveis para dominar todas as intenções do corpo e do espírito e mergulhar assim a sua consciência no vazio e no absoluto.
Experimentamos todos, em certos momentos das nossas existências, estados de felicidade intensa e profunda. Mas não têm contudo nada a ver com o êxtase do sufí, o despertar ou a vacuidade do hinduísmo ou do budismo. Trata-se de dois estados de consciência diferentes.
A consciência extática, a consciência do beato, do desperto, do nirvaniano, não é parasitada pelos movimentos do espírito. Toda a atividade subjetiva está extinta na beatitude. O extático torna-se portanto a emanação do seu ser profundo. A imagem do Ser finalmente, pois há extinção do ente.
Página realizada em 2000
evolução
Ao exprimir o primeiro nome, que é o sujeito, por ehyé, e o segundo nome, que lhe serve de atributo, por esta mesma palavra ehyé, declarou-se por assim dizer que o sujeito é identicamente a mesma coisa que o atributo. Maimónides (1135-1204), filósofo e médico.
Ce n'est pas une utopie. C'est une trajectoire déjà visible, inscrite dans l'histoire depuis le premier primate. Lentement. Imparfaitement. Mais dans une direction.
☀️ Découvrir le fondement