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Deus e a necessidade de divinizar
Mécanique Universelle — versão portuguesa

Deus e o niilismo

A necessidade de divinizar

Jerome Bosch, nef des fouA razão que temos para afirmar Deus é sempre, em última análise, a impossibilidade de encontrar na realidade o objeto inteiro do nosso pensamento. Lagneau

Deus, o universo e o humano.

Os «duvidadores», como nota o autor de «Os Miseráveis» (ver ao lado), são os aguilhões necessários à espiritualização da humanidade. O niilismo e o ateísmo fazem parte destes estimulantes. Longe de «matar Deus», obrigam o espiritual ao esforço permanente de precisar este divino. A sociedade humana precisa de um ideal moral no seu horizonte e só os valores declinados do espiritual, tal como as grandes espiritualidades o conceberam, pode servir de arquétipo supremo aos homens. Mas enquanto Deus permanecer esta transcendência inacessível ao pensamento racional, a sua contestação será igualmente produtora de progresso.

Deste equilíbrio, deste respeito que se tem o direito de esperar entre crentes e não-crentes, depende a harmonia das sociedades ocidentais — e quando se atenta a este respeito, gera-se naturalmente caos ou opressão.

Do espiritual

Quando o fanatismo religioso detém o poder, afasta-se irrepreensivelmente dos verdadeiros valores espirituais. Esvazia os livros sagrados da sua substância fundamental (o amor) para só guardar as regras esclerosadas e cruéis. Os grandes valores espirituais* são esquecidos em benefício do guerreiro.

*(bondade, compaixão, contemplação, universalismo, fraternidade, não-violência)

Do mercado

É a mesma coisa quando o materialismo niilista está ao comando do sistema de valores. O corpo e as suas pulsões, poder, dinheiro, dominação são estimulados. Fatalmente compulsiva, a sua omnipotência conduz irrepreensivelmente a humanidade para o absurdo, o narcisismo, a perversão e a crueldade. Angustiado face a uma criação que julga vazia de sentido, o ultramaterialismo deve avançar de cabeça baixa. Movido pela única força das pulsões e da venalidade, torna-se então problemático para a humanidade. O seu arrogante niilismo agride o espiritual*, acentuando o poder dos mais violentos dos religiosos sobre a maioria dos pacíficos.

* A título de exemplo, o aborto que representa um progresso para a sociedade, mas que o niilista irreflexivo faz evoluir para a industrialização, o que pode evidentemente revoltar o mundo espiritual.

A negação do outro

Sex Pistols god save the queenDas violências do religioso e das violências do mercado.

Para alguns, as religiões são responsáveis pela violência inter-comunitária. Estariam na origem das guerras e dos choques de civilizações.

Para outros, as responsabilidades são de atribuir ao neo-liberalismo. A violência atual declinaria do mercado e dos seus satélites (políticos, media).

Superar o niilismo, o egoísmo e o espírito de clã

Não partilhamos este ponto de vista maniqueísta. Violências e injustiças são obra dos homens, fruto das suas pulsões. Estas práticas negativas não têm nada a ver com os trajes de que se possam vestir. Utilizam indiferentemente o liberalismo ou a religião, o comunismo ou o niilismo para viver plenamente o seu desejo de escravizar o outro. Sob outros lugares ou outros modelos, apanham o comboio comunista, religioso ou laico para chegar às mesmas finalidades.

A violência humana decorre de uma visão clânica e restrita do mundo. Esta visão procede de uma educação, de um sistema de valores — é por isso que numerosos grupos humanos vivem sem violência. Desde a queda do muro de Berlim, uma espécie de materialismo niilista, de liberalismo predador, por vezes de religiosidade niilista, e de democracia elitista e discriminante impõe-se e aumenta o grau de violência, de surdez ao outro. Esta expansão dos antagonismos e das radicalidades acompanha a globalização e tem certamente um sentido.
Estás perto da tua boca mas longe do teu coração. Jeremias 12:2

a/ Por niilista materialista entendo aquele que não dá nenhum sentido profundo ao mundo. Nenhum sentido ao fundamento das ideologias inventadas pelos pensadores da humanidade. Esse escolhe o liberalismo não pelo bem do maior número, mas pelo seu próprio. Para ele, a ética, a moral, a lei são secundárias. Transgride-as ou manipula-as sem escrúpulos. Quando se submete a elas não é por convicção, mas porque não pode fazer de outro modo. Quando pode fazê-lo sem receio, não hesita em abusar dos seus congéneres. Utiliza-os como simples objetos (simplesmente porque não atribui nenhuma profundidade espiritual ao homem).

A este niilismo materialista oporei o niilista espiritual. Não acredita em Deus, mas tem fé na humanidade (Jean-Paul Sartre, Albert Camus). Pensa intuitiva ou intelectualmente que ela tem um sentido. Coloca os grandes valores humanos (ética, moral, fraternidade, igualdade, justiça, liberdade, amor ao outro) no topo, acima da sua pessoa e age em conformidade. É o justo, o íntegro, o respeitoso.

Somos todos seres divinos — o futuro acabará por sabê-lo. Jean-Marc Tonizzo

b/ Por niilista religioso entendo o indivíduo que utiliza a religião de forma clânica retendo sobretudo os seus dogmas belicosos. Lê os livros sagrados ao primeiro grau sem captar as suas metáforas. Ignora o próprio sentido da busca espiritual. Quando é chefe religioso, produz ordens iníquas. Quando é «fiel», obedece-lhes.

A este oporei o verdadeiro religioso.

Seja hindu, judeu, budista, cristão, muçulmano — nenhum humano verdadeiramente apaixonado pelo misticismo aceita isso. Todo o espiritual que captou as divinas inspirações dos livros sagrados não pode cometer-se na violência, na iniquidade, no racismo, no antissemitismo ou no abuso do outro.

Em conclusão

Vemo-lo — certos ateus estão mais próximos dos verdadeiros fundamentos religiosos do que certos religiosos. Ser um ser espiritual não tem nada a ver com o deísmo ou o ateísmo — é antes de tudo uma questão de abertura de consciência.

ano 2001

o niilismo



Victor Hugo, écrivain Français

Estes duvidadores abriram caminhos
e são tão grandes sob o céu azul
que, doravante graças às suas dúvidas
podemos finalmente afirmar Deus. Victor Hugo

Entre dois homens que não têm a experiência de Deus, aquele que O nega está talvez mais próximo dEle. Simone Weil

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Ce n'est pas une utopie. C'est une trajectoire déjà visible, inscrite dans l'histoire depuis le premier primate. Lentement. Imparfaitement. Mais dans une direction.

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