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Da educação — elevar o olhar para o outro
Mécanique Universelle — versão portuguesa

Da educação

Elevar o olhar para o outro

Un dessin sur l'educationO respeito pelo outro

Toda a educação humana deve preparar cada um para viver para o outro, a fim de reviver no outro. Auguste Comte, Sistema de política positiva

Educar o olhar lançado sobre o outro.

Neste capítulo consagrado à negação do outro, uma necessidade surgiu : a educação. O homem — é vital para a humanidade — deve aprender a considerar o homem como uma identidade igualmente espiritual. Uma identidade espiritual no sentido transcendente e universal do tema. Uma identidade que se situa para além das pertenças religiosas.

A lei é necessária, mas ainda demasiado fraca para suprimir por si só as pulsões abusadoras. É evidente quando comparamos o número de abusos entre os períodos niilistas (hoje) e os períodos fortemente espiritualizados. Neste tempo de transição, os verdadeiros valores religiosos (não os utilizados hoje para conduzir conflitos e outras cruzadas) são ainda essenciais à comunidade humana — e o homem deve continuar a considerar o outro como uma alma (pertencente a Deus) que ninguém deve abusar, maltratar ou eliminar. Durante a construção da humanidade, é a única forma de impedir um indivíduo de reduzir os seus congéneres ao estatuto de objeto.

A bondade de natureza

Segundo a nossa filosofia, o espírito humano é originalmente apto a amar o seu próximo. Todas as bases deste amor (a empatia, a piedade, a amizade, o amor) são inerentes à nossa natureza. Todos os bebés mamíferos são capazes, por exemplo, de trocar afeto. As reportagens sobre animais mostram-no muito bem. Só as exigências da sobrevivência impedem a fluidez destas condutas. Jean-Jacques Rousseau tem portanto razão em dizer : «o homem é bom por natureza.»

Mas o ser humano ultrapassou este estádio instintivo (sempre presente — basta observar um bebé a receber manifestações de afeto). Por cima deste gerador natural de amor, uma formação educativa específica vem enxertar-se : a educação para o respeito do próximo. Esta educação permite à criança encarnar os valores profundos da nossa humanidade. Tem por objetivo conduzir o homem a considerar o outro como um fim.

A educação preserva e desenvolve a humanidade.

O mundo da cultura está lá para transcender a afetividade instintiva do mundo mamífero. Muitas vezes, o «instinto de amar» animal é limitado pela potência do narcisismo. A educação humana tem a incumbência de resolver este problema natural. Deve permitir à criança gerir o seu egocentrismo primário. Em vez de ser movido pela única potência dos seus instintos, o pequeno homem deve aprender a ter em conta o outro. O outro papel da educação é desenvolver a empatia, a generosidade, a bondade, a simpatia, o altruísmo...

O novo difusor de educação

Daí a importância de ser vigilante sobre o conjunto dos sistemas educativos. Deles depende com efeito o ambiente de uma sociedade. Hoje, por exemplo, a televisão, o cinema e a Internet desempenham o papel de professor. Certos valores difundidos por este «novo educador» são positivos para a humanidade. É o caso dos valores que estimulam o universalismo. Dos valores que lutam contra os preconceitos. Podemos igualmente dizê-lo do desenvolvimento da expressão artística, etc.

Outros pelo contrário podem parecer negativos. É geralmente o caso de todas as propostas ao individualismo egoísta, ao comunitarismo ou ao elitismo discriminante. E estes valores favorecem evidentemente as condutas de abuso e de negação do outro.

O papel maior do sistema de valores

A educação está portanto no coração da sociedade humana. No coração do devir mental de um indivíduo, e no coração do ambiente geral da humanidade. Um sistema de valores pode estimular o narcisismo dos indivíduos. Pode manter o ser humano num estado de espírito infantil e irresponsável. Tal sistema acentua então as tendências para o elitismo discriminante no seio da sociedade. Decorre naturalmente um excedente de injustiça, de agressividade, de egoísmo e de machismo.

Desde o final dos anos 80, estamos neste caso. Os atuais difusores de valores (media e mercado) aumentam o narcisismo da humanidade. E isso aumenta naturalmente o grau de injustiça, de egoísmo, de inconsciência e de violência no seio da sociedade.

A educação pode pelo contrário estimular a solidariedade, a partilha, a justiça. Pode fazer progredir estes valores no seio da humanidade. Foi o caso por exemplo nos anos que chamamos os Trinta Gloriosos.

O reverso da medalha

Evidentemente, cada evolução pode arrastar a perda das qualidades anteriores. Ao tornarmo-nos homens, por exemplo, perdemos a ingenuidade, a simplicidade, a espontaneidade dos primates naturais. Na maioria das vezes, a educação humana recobre estas qualidades básicas. É sem dúvida o caso de toda a educação.

Por exemplo, a confiança espontânea do bebé leão desaparece progressivamente em benefício dos costumes adultos do seu clã. O leãozinho é educado para a caça pelos seus pais. O grupo ensina-o a ter cuidado com os outros predadores. A viver em alerta, etc. Nutrido pelo homem e criado em companhia das suas presas originais, não desenvolverá forçosamente a sua natureza predadora. Ou com muito menos intensidade.

Educação e traumas

Tudo está na educação

tigre et singe s'aimantInstinto e inteligência

Que exista ainda na criança (como no leãozinho) um instinto predador parece evidente. Mas no homem, os milénios de cultura reduziram grandemente esta força. Reclama todavia um dique educativo para reprimir certas expressões. Tanto mais que estes instintos (dominação, predação, copulação) utilizam agora a inteligência para se afirmar. E quando são abusivos e misturados com a inteligência, isso coloca graves problemas à humanidade. Podem simplesmente conduzir à perversidade, à crueldade ou à barbárie.

Na natureza, a tendência a afirmar-se à custa dos seus congéneres é necessária à sobrevivência do grupo. No espírito animal, está isenta de toda a perversão. Mas a humanidade tinha de sofisticar o seu espírito para abandonar o reino da natureza. Tinha de se tornar inteligente para superar esta tendência natural.

O mal e a inteligência

A origem do que chamamos «o mal» situa-se sem dúvida na natureza. No instinto predador ou na necessidade de dominar a que estão submetidas a maior parte das espécies. Mas o mal na sua dimensão humana é inteiramente o fruto de a cultura e da educação.

Para as necessidades da sua evolução, a nossa espécie teve de transformar os seus instintos primários. Frustrá-los em certos pontos, canalizá-los noutros, ou desviá-los. Para a maior parte dos seres humanos esta compressão decorre da melhor forma possível. Os homens aprendem a dominar as suas pulsões a fim de abusar o menos possível dos seus congéneres. Só uma ínfima minoria de estados de espírito é incapaz de aceitar as restrições impostas aos seus desejos. Utilizarão então a violência, a transgressão ou a perversão para os viver.

A transformação dos instintos primários em «mal» é uma passagem obrigatória da evolução humana. Era necessário que este instinto se tornasse o que chamamos o mal para que a humanidade pudesse dedicar-se a reduzi-los.

A força do mal

Hoje, todos os seres humanos sabem o que é o bem e o que é o mal. Quando um indivíduo «escolhe» agir mal, é porque é incapaz de resistir ao apelo da transgressão. A sua consciência moral não tem a força de se opor ao desejo de uma má ação. Estamos quase todos neste caso. Exceto alguns sábios, o homem comum tem a maior dificuldade em resistir ao número das pequenas infrações possíveis. No entanto, progressivamente, a consciência e a vontade humanas progridem. Ao progredir, o homem torna-se cada vez mais capaz de dominar os seus instintos, que evoluíram em pulsões.

O mal e a sociedade

O mal é uma consequência da nossa humanização. Decorre da dificuldade de dominar as nossas forças pulsionais. Decorre igualmente das falhas da sociedade para com a sua população. A sociedade humana tem o dever de oferecer aos seus filhos a melhor educação possível. Tem igualmente o dever de permitir aos pais tornarem-se bons pais. Uma grande parte do mal sofrido pelas crianças emana destas falhas. Educado na violência e na transgressão, um grande número destas crianças terá de passar pelo que chamamos «o mal» para se exprimir.

Esta parte do mal que a sociedade deve suportar decorre diretamente da globalidade educativa da sociedade. Regride ou progride em função das escolhas de vida impostas pelos decisores. Os sistemas egoístas negligenciarão a parte da população sofredora. E esta parte da humanidade só terá a violência para se exprimir (é o caso do neoliberalismo).

Um outro segmento da expansão da transgressão decorre do exemplo dado pelas elites. O sentimento de impunidade que se desenrola cada vez mais à vista e ao conhecimento da sociedade exacerba o gosto de o imitar. O grau de perversão de uma sociedade é proporcional aos valores em que essa sociedade está imersa. O non-sense, o narcisismo ou a fraqueza ética são geradores de perversidade e de desumanidade.

O que ela quer, a humanidade pode

  • Podemos portanto pensar que uma educação atenta, justa e generosa reduziria a violência humana.
  • Pensar que uma educação benevolente, sem carências afetivas e num mundo pacificado, suavizaria os costumes da humanidade.
  • Pensar que uma educação universal numa competição respeitosa e lúdica reduziria o racismo e a xenofobia.
  • Pensar finalmente que uma sociedade fraterna e privilegiando o amor ao próximo viria a superar a negação do outro.

Evidentemente, o mundo assim descrito pode parecer utópico. Exigiria uma coesão humana perfeita, um estado de paz universal e a extinção do perigo.

Para a teoria aqui presente, esta utopia é o nosso futuro. Um futuro que elaboramos progressivamente e sem nos darmos conta.

ano 2001

divinizar



Andre Gide, auteur Français

«As leis e as morais são essencialmente educadoras, e por isso mesmo provisórias. Toda a educação bem entendida tende a poder prescindir delas. Toda a educação tende a negar-se a si mesma. As leis e as morais são para o estado de infância : a educação é uma emancipação. Uma cidade, um estado perfeitamente sábio viveria, julgaria sem leis, sendo as normas o espírito do seu areópago. O homem sábio vive sem moral, segundo a sua sabedoria.»
(André Gide / 1869-1951 / Diário 1889-1939)

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L'humanité va vers l'éveil

Ce n'est pas une utopie. C'est une trajectoire déjà visible, inscrite dans l'histoire depuis le premier primate. Lentement. Imparfaitement. Mais dans une direction.

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