Da forma ao fundo«Age de tal forma que trates a humanidade, tanto em ti como no outro, sempre como um fim e nunca simplesmente como um meio.»
«Ora digo : o homem, e em geral todo o ser racional, existe como fim em si mesmo, e não simplesmente como meio de que esta ou aquela vontade possa usar a seu bel-prazer — em todas as suas ações, tanto nas que lhe dizem respeito a ele próprio como nas que dizem respeito a outros seres racionais, deve ser sempre considerado ao mesmo tempo como fim.» (Fundamento, p.104). Kant
Para a evolução, o homem é um meio. Para o homem deve ser um fim.
Na primeira parte da nossa reflexão, estabelecemos uma ligação entre o indivíduo e o princípio criador (Deus), distinguindo assim o fundo do ser humano da sua forma. Perguntemo-nos agora em que andar do cérebro se constrói a nossa visão moral do outro. Por outras palavras, a que nível do espírito se elabora o respeito pelo outro, o amor ao próximo.
A evolução da humanidade conduz o olhar humano do exterior para a interioridade do outro. Para compreender este caminho, distinguimos simbolicamente dois grandes eras na formação do nosso cérebro. O cérebro reptiliano (na origem) e o córtex ou cérebro recente (trata-se de uma ferramenta conceptual e não de uma verdade científica).
Ao cérebro reptiliano corresponderia o instinto, a pulsão, a consciência primitiva... Ao córtex, a consciência moral.
Segundo a nossa filosofia, ao martelar-nos de amor, de moral, de conhecimento e de educação, a sociedade desenvolve o nosso córtex — lugar onde se constrói a capacidade de considerar o outro como um fim, a aptidão para respeitar os nossos congéneres. Quando esta zona é insuficientemente edificada moralmente (pelo grupo, pela família e pela sociedade), a consciência primitiva revela-se então toda-poderosa.
Os instintos e as pulsões florescem nesta consciência reptiliana. Esta é naturalmente levada a instrumentalizar tudo o que toca e a perceber o outro como uma presa ou um objeto. O homem deve portanto superar os seus instintos e as suas pulsões para considerar o outro na sua plenitude. Deve hissar-se ao nível da consciência moral para perceber a verdadeira dimensão espiritual do outro (espiritual no sentido kantiano do termo). No seio da diversidade primate, só a espécie humana parece em condições de aceder a esta consciência espiritual (digo bem «parece»). Uma consciência superior oriunda da educação e que evolui conjuntamente ao desenvolvimento do ser humano.
Uma construção do espíritoNarcisismo : admiração de si mesmo, atenção exclusiva voltada para si. Psicanálise : fixação afetiva a si mesmo.
A consciência do outro constrói-se no espírito, desde a mais tenra infância. Nasce num narcisismo quase total (o do lactente), desenvolve-se pouco a pouco no seio do grupo social (pela educação, a família, os media, etc.) e encontra o seu desabrochar na idade da sabedoria. Floresce então (se a sabedoria for adquirida) em benevolência ordinária para com o outro, como se percebe na maior parte dos indivíduos. É pelo menos o caminho mais lógico, que a vida ensina em silêncio e pelo exemplo.
Como a do indivíduo, a consciência moral média da humanidade está, ela também, em evolução. Depende do nível de conhecimento adquirido pela humanidade. Era, por exemplo, diferente antes da revolução Francesa e depois. A consciência do outro, na época do tráfico de escravos, já não tem nada a ver com a consciência do outro hoje.
Depende igualmente das condições geopolíticas presentes (por exemplo, a consciência moral do mundo atual parece inferior à dos anos «touche pas à mon pote»). Depende finalmente do sistema dominante e dos valores que difunde. A consciência do «estrangeiro» não é a mesma durante a colonização, depois da descolonização e na época atual.
Em todo o caso, apesar dos recuos parciais e pontuais da humanidade, a consciência humana evolui de forma progressiva. Mesmo que de um lado, sob o império do mercado, o homem tenda a instrumentalizar tudo o que se move, a progressão fulminante do turismo, da Internet, da televisão é um fator essencial do desenvolvimento da empatia e do respeito pelo outro.
ano 2001
educação
O governo provisório, considerando que a escravidão é um atentado contra a dignidade humana ; que ao destruir o livre-arbítrio do homem, suprime o princípio natural do direito e do dever ; que é uma violação flagrante do dogma republicano : Liberdade, Igualdade, Fraternidade (...) decreta que a escravidão será inteiramente abolida em todas as colónias e possessões francesas. Decreto de abolição, de Victor Schœlcher, publicado a 27 de abril de 1848.
Ce n'est pas une utopie. C'est une trajectoire déjà visible, inscrite dans l'histoire depuis le premier primate. Lentement. Imparfaitement. Mais dans une direction.
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