Do espiritual.O que é um ser humano ? O outro ? Em que se distingue de uma coisa ou de um animal ?
Muitas vezes, o homem considera o outro como um meio, um instrumento. Este tipo de comportamento é bastante banal e na maior parte dos casos é para o bem recíproco (escolho tal pessoa como amigo pois isso me proporciona prazer, mas como aceita, isso faz-lhe bem a ele também). Mas por vezes, esta instrumentalização serve-nos para outros fins. Pela astúcia ou pela força, utiliza o outro para um prazer egoísta, um desejo de dominação. Há muito tempo a humanidade trabalha para romper com este instinto. Pede ao indivíduo que eleve o nosso olhar da forma para o fundo. Que considere o seu congénere como um fim.
«Trata sempre o outro como um fim e nunca apenas como um meio.» Emmanuel Kant (1724-1804)
Durante milénios, todas as espiritualidades trabalharam neste sentido. Ao elevar o homem ao nível de «alma pertencente ao divino», sacralizaram-no, engrandeceram-no.
Há alguns séculos, a sociedade passa do religioso ao laico, da moral espiritual à lei profana. O código civil tomou o relevo do espiritual para continuar a proteger o indivíduo. É a legislação agora que proíbe matar, roubar ou maltratar os seus semelhantes.
Esta transmissão de poderes comporta muitas vantagens mas também alguns inconvenientes. Ao reduzir o religioso como pele de onagro, o indivíduo perde progressivamente o seu caráter sagrado. A lei certamente, ao ameaçar-nos com a sua justiça e a sua prisão, proíbe-nos de abusar do outro — mas sem pôr em evidência o mal que se engendra. O laico favorece o desenvolvimento da individualidade mas o espiritual favorece o da empatia. Para o religioso, o «outro» é essencial (teoricamente). Para o laico liberal, o essencial sou eu. A diferença é considerável.
Com efeito, se a minha empatia estiver ausente e se além disso não temer a justiça, ou se puder instrumentalizá-la, nada me impede de maltratar o outro.
Por outras palavras, enquanto a justiça não gerir perfeitamente o homem, a educação moral deveria acompanhá-la. Eis porque me parece essencial permitir ao religioso iluminar a natureza espiritual do ser vivo, a origem divina da nossa energia vital. E para isso devemos descascar as ilusões das nossas aparências mutáveis. Só nestas condições podemos fazer do outro um fim e não um meio.
Para além dos termos empregados para se qualificar (grande, pequeno, inteligente, suave, duro, chefe, subordinado) — quem somos nós ?
Um montão de ossos e de carne originada do nada e destinada a lá regressar para sempre ? Uma personalidade que se enriquece a fogo lento para acabar aniquilada nos esquecimentos do nada ? Uma massa física, uma posição social, com as quais navegamos na existência ?
O ser humano, a meu ver, não se resume às descrições utilizadas para o definir. A aparência, a notoriedade, a pertença a tal ou tal grupo são dados superficiais e mutáveis. É o revestimento social de um ser constituído de átomos ligados ao universal divino. São normas culturais utilizadas pelo homem para elaborar a humanidade. As qualidades como a beleza, o poder, a inteligência não são fins em si mesmas. É por isso que podemos utilizar estas qualidades para instrumentalizar o outro.
Se o universo porta em si este meio de expressão que chamamos Amor, é porque existe um divino. O ser humano representa portanto antes de tudo uma profundidade espiritual. Está inteiramente ligado ao princípio criador do qual depende fundamentalmente. O homem está ligado a todas as coisas do universo por uma identidade fundamental : as partículas.
Pelo átomo e pelo quark, somos absolutamente similares a cada coisa deste mundo. Somos um composto do universo. A excrescência de uma criação maravilhosa e empírica, capaz de engendrar um mundo espiritual e cuja primeira intenção se situa antes do universo. Graças à nossa aptidão para espiritualizar, somos outra coisa além de uma simples estrutura de carne. Outra coisa além de um simples conjunto de órgãos e átomos (o que é válido para todas as coisas mas a diferentes níveis).
Como todas as coisas, o corpo do homem é antes de mais composto de átomos. Através desta estrutura, liga-se ao divino e unifica-se ao conjunto da criação.
A ossatura corpuscular do mundo (quarks, cordas) é a natureza íntima do universo. Esta natureza imaterial preexistia antes do universo.
1/ O ser humano pertence portanto antes de tudo a uma coisa extraordinária e anterior ao universo. Por outras palavras, o ser humano pertence a um princípio criador. Todo o ser vivo é portanto antes de tudo um elemento desta coisa extraordinária que criou o universo. Esta coisa, as espiritualidades chamam-lhe Deus ou divino.
2/ A outro nível, o ser humano pertence à grande aventura do vivente. A esta escala, o homem distingue-se da matéria inerte. Faz parte do vivente. Com ele, participa em a subida progressiva para um espírito superior.
3/ E finalmente, o homem pertence à espécie humana, com todas as suas novidades. Entre estas inovações, encontra-se a nossa formidável progressão. E no interior desta progressão, a «evolução progressiva para um espírito superior». Por outras palavras, a subida progressiva da humanidade para a sua última perfeição (o êxtase, a santidade, a sabedoria)...
ano 2001
os fins e os meios
De que nos serviria a sorte de termos nascido humanos se não tivéssemos os meios de viver como seres humanos. Saikaku Ihara
Ce n'est pas une utopie. C'est une trajectoire déjà visible, inscrite dans l'histoire depuis le premier primate. Lentement. Imparfaitement. Mais dans une direction.
☀️ Découvrir le fondement