O homem não é livre de abusar do outroNa vida, há encontros estimulantes que nos incitam a dar o melhor de nós próprios, e encontros que nos minam e podem acabar por nos destruir. M. F. Hirigoyen.
Mesmo que saibamos que de um mal pode a qualquer momento surgir mais bem (e a mecânica universal é um exemplo), mesmo que as mais tóxicas das nossas relações se revelem ao final, por vezes as mais fecundas em evolução, devemos condenar o «mal» e trabalhar para o «bem» para acompanhar a direção que parece ter tomado a humanidade.
Mesmo que a violência e a crueldade diminuam ao longo das eras, a sua presença jaz ainda no percurso dos homens e exorta-nos a opor-nos a elas.
A negação do outro, o abuso dos vulneráveis, o desprezo das populações estão sempre presentes. Estes comportamentos negativos transbordam a nossa vontade aproveitando-se da fraqueza da consciência humana. Negar ou abusar o outro é sobretudo uma questão de pulsões. É a inversão pelos nossos instintos dos mecanismos encarregados de os conter (mecanismos como a educação, a moral, o afeto, a escuta, a aptidão para a empatia).
O maltratante (como aquele que obriga a maltratar) é antes de tudo vítima e, como sustenta Platão, o homem não é livre de abusar do outro. Não tem verdadeiramente a escolha de agir de outra forma — é objeto das suas paixões, das suas pulsões e das suas tendências, e vítima das falhas da sua socialização. No absoluto portanto, dever-se-iam julgar as carências educativas do homem e não o homem.
No entanto, para construir a humanidade, o homem deve julgar os seus atos. Deve igualmente julgar os dos outros. É necessário que se considere um sujeito soberano e responsável. Responsável pelos seus atos e pelo seu comportamento para com os seus semelhantes.
Um homem abusa dos seus congéneres quando as suas «pulsões negativas» submergem a sua consciência, quando as suas tendências transgressoras são mais fortes do que a sua moral íntima, mais fortes do que a sua consciência do outro e o seu respeito pelos semelhantes. Por outras palavras, o transgressor é sempre vítima da potência dos seus instintos abusadores (desejo de poder, de dominação, de acumulação de privilégios).
Se tivesse resistência moral suficiente para evitar de maltratar os seus congéneres, evitá-lo-ia. As carências educativas e afetivas, a falta de ensinamento para o amor universal do outro, privaram-no disso. Os maus-tratos sofridos na infância e os valores da sociedade também. O conjunto destas falhas bloqueiam o desabrochar da consciência profunda e universal da criança. Abrem-na à possibilidade de utilizar o outro como um vulgar objeto para atingir os seus fins.
Uma filosofia do futuro em direção ao amorPara o pensamento comum, o mal é um valor puramente negativo. Emanando do «diabo» ou da pura perversão, seria uma espécie de anomalia.
Segundo a nossa filosofia, no entanto, na origem de toda a ação (mesmo «má») encontra-se o amor absoluto. O amor absoluto é o motor subterrâneo de toda a ação, a substância fundamental da energia criadora. É a essência do princípio na origem do universo.
Sobre esta energia de base vêm amalgamar-se os constituintes e as faculdades necessárias à evolução. Constituintes necessários à expansão do universo, do vivente e dos homens em direção ao bem absoluto. É no seio desta evolução que aparece em dado momento o que chamamos : «o mal». A vida, porque não há outros meios, deve incluir o mal para evoluir para a sua perfeição. Os piores atos humanos encontram as suas origens em condutas já presentes na natureza (predadores/presas, dominação/submissão). A energia criadora Amor ativa portanto cada um dos nossos atos, mesmo os mais bárbaros.
Entre a energia original (Amor absoluto) e a finalidade da ação interpõem-se as nossas zonas cerebrais pulsionais.
Certas destas zonas travestem este impulso de amor inicial. Vestem-no de negação do outro, de racismo, de predação ou de crueldade.
Poderíamos então dizê-lo assim : Todo o ato contrário à humanidade é um pedido ou uma oferta de amor que não sabe exprimir-se. Mas esta inadequação entre o impulso amor e a ação final é uma necessidade para a humanidade. Para construir a sua perfeição (por outras palavras o seu «reino de amor absoluto»), a nossa espécie deve evoluir. Deve evoluir através da luta permanente entre o «bem» e o «mal» (é a astúcia da razão de que fala Hegel).
Ao perseguir o seu próprio interesse, os homens constroem a unidade da humanidade...
Evidentemente, o amor dado ou esperado pelo viés destes atos condenáveis está bem longe do amor absoluto do início. Está bem longe do amor atingido pelo beato, mas é todavia o seu pequeno primo.
Página datando de 2000
mundo
Aquele que tem a experiência deste amor (o amor pelo profeta) amará também os seus inimigos, porque se aperceberá de que eles se assemelham de facto às pessoas do seu entorno que ama naturalmente. Qastallânî, século XV.
Ce n'est pas une utopie. C'est une trajectoire déjà visible, inscrite dans l'histoire depuis le premier primate. Lentement. Imparfaitement. Mais dans une direction.
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