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A negação do outro — um mercado niilista
Mécanique Universelle — versão portuguesa

A negação do outro

Um mercado niilista

vallauris kitschO saque dos valores humanos

A razão pura é prática por si mesma e dá ao homem uma lei universal que chamamos a lei moral. Kant

Aceitar a fatalidade é o caminho do êxtase, resistir-lhe é o da evolução. A contemplação está na origem do despertar, a ação na do progresso. A contemplação e o «não-julgamento» de um lado, a insatisfação e a tomada de posição do outro.

Perfeito e perfectível

Segundo a nossa filosofia, o mundo é sempre perfeito no presente, sendo ao mesmo tempo perfectível. Por outras palavras : no presente, a humanidade não pode ser mais evoluída do que o que é — mas o homem deve pensar o contrário para ter o desejo de a mudar. Esta permanente insatisfação é o mais poderoso motor da nossa evolução.

A natureza predestinou o homem à vida social, quis o trabalho comum. Bergson.

Graças a esta insatisfação, mudamos quotidianamente o nosso mundo. Hissamo-lo da sua condição animal (predação, espírito de clã, agressividade) para os seus valores humanos. Mas passar do mundo primário e clânico de hoje a um mundo osmótico e universal é uma coisa difícil. Abandonar o egoísmo e o egocentrismo das nossas origens primates para a sabedoria humana é antes de mais uma questão de valores a privilegiar. A humanidade teria os meios de o realizar. Sabemos globalizar o Coca-Cola — porque não conseguiríamos globalizar os grandes valores humanos ? Os grandes valores como a universalidade, o respeito pelo outro e a solidariedade...

O Ocidente face ao abuso do outro

A injustiça retomou asas

hans haackeAmar o mundo tal como é, em vez de o desejar à nossa conveniência, diz Espinosa.

Nenhuma cultura, nenhuma civilização é melhor ou inferior a outra. Todas merecem elogios e críticas, e cada uma delas oferece igualmente a sua totalidade à humanidade.

A atitude atual do ocidental face à injustiça é bastante ansiogénica. Através dos media, encoraja-a*, deixa os poderosos abusar legalmente do outro e pune severamente os pobres que aí se perdem.

*A aceitação, ou mais precisamente o «encorajamento», a este neoliberalismo desregulado não é senão uma licença de abuso disfarçada.

Há algumas décadas, o mercado mercantiliza o humano. Desenvolve as tendências abusadoras. Estimula a sede de riquezas materiais, o gosto pelo luxo, o desejo de poderes primários. Aumenta portanto a nossa tendência a tirar prazer em detrimento do outro. A expansão destas tendências aumenta naturalmente o desprezo dos «dominantes» pelos «dominados». Obriga os poucos pobres ávidos de dominação a transgredir para aceder a estes novos desejos.

  • De um lado este sistema deixa certas transgressões dos dominantes florescer em total liberdade (deixando globalizar sem vigilância e difundir os seus novos «valores» sem os criticar).
  • Do outro, tenta reabsorver as transgressões populares reprimindo e encarcerrando o povo pobre cada vez mais violentamente.

Este princípio iníquo reconduz as nossas democracias para os velhos funcionamentos autocráticos. Institui o encarceramento e o abuso do outro como valor primeiro da sociedade. As estatísticas sociológicas das nossas prisões são eloquentes neste assunto. E este mecanismo é exponencial apesar do encarceramento desmesurado praticado. Ignorar as causas da expansão das transgressões só tem duas saídas possíveis :

  1. Uma subida para um totalitarismo puro (do tipo ditadura) ou larvado (como o sistema americano atual).
  2. Ou o retorno à lei da selva (observado hoje na maior parte das grandes cidades do mundo).

Nos dois casos, os povos pagam o preço desta demissão da crítica. Demissão dos media (pois uma grande parte da responsabilidade incumbe às cumplicidades jornalísticas) e dos intelectuais face à predação dos dominantes.

Elevar os valores humanos

Os limites da lei sem moral

L'exploitation du travail des enfantsA lei por si só não pode impedir o abuso do outro. Sabemo-lo bem — há cada vez mais leis que se supõe proteger o indivíduo.
E no entanto, desde a tomada dos media pelo mercado, o abuso do outro está em expansão no mundo (mesmo que este abuso passe progressivamente de físico a intelectual).

Um processo sistemático

  1. Os media, sob o impulso do mercado, convidam os jovens a sucumbir aos valores ultraliberais (tornarem-se ricos e poderosos). Ao mesmo tempo, os poderosos institucionais destroem as estruturas sociais e o elevador social. Para aceder à riqueza e ao poder, o povo não tem portanto outros meios senão transgredir. É portanto constrangido a esquecer os seus princípios, a sua moral, a sua ética e as suas leis.
  2. Os mecanismos desta globalização liberal geram cada vez mais dominantes, que além disso são constrangidos a crescer para sobreviver. Condenam-nos portanto a enriquecer-se cada vez mais à custa dos dominados.
  3. O homem fracamente moralizado tem tendência a transgredir instintivamente a lei.
  4. Sendo a lei ainda imperfeita, o homem fracamente moralizado aproveita estas imperfeições para abusar do outro «legalmente» (a deslocalização pelos industriais ocidentais em países com fracas proteções sociais é um exemplo cruel disso).
  5. E finalmente, sendo a lei ainda injusta (embora evolua claramente e rapidamente para sempre mais justiça), protege a parte da população abusante ligada aos poderes.

Tomemos um exemplo

Hoje, a lei proíbe ao homem de fazer do outro um escravo. E efetivamente, a escravatura sob as suas formas antigas está praticamente abolida. No entanto, constatamo-lo todos os dias, o mercado mantém planetariamente indivíduos numa escravatura larvada (e cada vez menos larvada, aliás, pois não é suficientemente criticada pelos media e intelectuais).

Ser empregado por salários de sobrevivência, em condições de trabalho lamentáveis e sem respeito pela pessoa... é o quotidiano de milhares de milhões de indivíduos. É a moeda corrente deste sistema industrial cujas injustiças são cada vez mais protegidas pela lei.

O homem mau é aquele que se engana sobre as suas verdadeiras intenções e as julga justificadas porque a sua conduta exterior não contradiz a lei moral. Kant

Outro exemplo

A indulgência dos media para com o mercado autoriza este último a abusar cada vez mais da humanidade. Certos setores do mercado sem escrúpulos não têm qualquer complexo em sobre-endividar a parte vulnerável da população para vender os seus produtos. E estes abusos estão na legalidade. Estes abusadores conseguem negar o outro abafando a sua empatia natural ou encomendando sem se sujar as mãos.

Originalmente, a empatia é um dado inato, presente em cada ser humano. É depois enriquecida pela educação. Hoje, a educação para a empatia é deficiente enquanto a negação do outro é dada como exemplo. O homem pode então negar a existência do outro sem remorso (utilizando alguns auto-argumentos perversos do tipo : se não for eu a abusar, outro o faria no meu lugar !).

Hoje, existem mesmo escolas que ensinam a manipulação do outro para fins mercantis. Nestes cursos, «psicólogos» ensinam como vender violando simplesmente a vontade do consumidor, portanto do sujeito. E estes psicólogos que aceitam utilizar o seu conhecimento para estes fins têm uma pesada responsabilidade.

Texto escrito por volta do ano 2000



Estado de direito



Chateaubriand

As instituições passam por três períodos : o dos serviços, o dos privilégios, o dos abusos. Chateaubriand

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L'humanité va vers l'éveil

Ce n'est pas une utopie. C'est une trajectoire déjà visible, inscrite dans l'histoire depuis le premier primate. Lentement. Imparfaitement. Mais dans une direction.

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