O Ocidente face à sensibilidadeÉ preciso muita ingenuidade para fazer grandes coisas. René Crevel
O nazismo queria suprimir a parte sensível, emocional, artística, original, enigmática, revolucionária da sua nação (é por isso que quis fazer desaparecer a sua comunidade judaica e cigana, os seus homossexuais, os seus comunistas, os seus artistas, os seus deficientes).
Os povos tradicionais e fortemente espiritualizados (que este regime ditatorial desprezava) veneravam pelo contrário os seus xamãs, os seus artistas, os seus simples de espírito, os seus diferentes. Em suma, respeitavam a sua parte de sensibilidade.
A aventura nazi deve servir de lição. Um regime que exclui, maltrata ou pior, elimina a sua parte sensível, está condenado ao desaparecimento.
Por certos lados (mas sem comparação), o liberalismo atual comporta-se mal hoje para com os seus frágeis, os seus sensíveis. Os seus valores endurecem a sociedade. Idolatram os competidores e abandonam os «inadaptados». Para esta ideologia, o fraco deve aprender a defender-se do forte — deve ensinar-se à parte pacífica e ingénua da população como sobreviver num mundo de selvagens.
Em vez de moralizar o mercado, os media propõem programas para endurecer a parte doce e cândida da população. No entanto, a lógica da nossa evolução para o melhor quereria pelo contrário que se educasse os primeiros para que aprendessem a não mais abusar da população vulnerável. É a única forma de permitir à humanidade tender para sempre mais humanidade. Para evoluir para uma sociedade cada vez mais humana, tratar-se-ia de trabalhar sobre o dominante (como aliás a democracia o sugere) e não de elevar a humanidade ao estado de espírito agressivo e regressivo dos dominantes.
Não se trata de ensinar ao homem como sobreviver num mundo de selvagens, mas de tornar mais humanos os «selvagens» da humanidade.
Quanto mais a população frágil sofre, mais o mundo está nas mãos dos dominantes... Eis o barómetro do nosso nível de inteligência calorosa.
O grau de sofrimento da população vulnerável pode servir de escala de evolução. Pode permitir saber que distância colocámos entre o humano e a ordem selvagem. Na natureza, os animais frágeis, os fracos e os pequenos são as presas designadas dos predadores (este princípio é aliás um dos argumentos utilizados pela perversão narcísica e pelo racismo para justificar os seus arcaísmos). O princípio democrático inverte este estado de coisas. Atribui a soberania ao povo, por essência mais frágil.
Hoje, sob o reinado do liberalismo e do mercado, o povo serve de presa e de utensílio aos dominantes. Prova assim que se tornou um sistema fundamentalmente antidemocrático.
Os estados são cada vez menos capazes de proteger a população sensível dos predadores. Podemos interpretar isso como um retorno da espécie humana às leis da natureza.
Compreender o sentido da humanidade.Se o homem justamente abandonou o mundo animal, é antes de mais para substituir as leis injustas da natureza pelas justas leis da cultura.
Estas leis devem permitir-nos compreender o sentido da humanidade. Um sentido que nos torna seres cada vez mais humanos. Devemos portanto obedecer a esta evolução para sempre mais humanidade.
A capacidade de proteger o vulnerável dos seus predadores diferencia o nosso psiquismo do do animal. Não é uma qualidade menor. Não esqueçamos que é graças a esta população sensível (os xamãs, os profetas, os artistas...) que a humanidade desenvolveu a sua consciência, a sua humanidade e o seu contacto com o divino.
Entre os leões, um terço dos leõezinhos são mortos pelos seus próprios dominantes para assentar a sua dominação e acasalarem-se com as fêmeas. Que dizer então da guerra, da violência, dos assassinatos por pessoas interpostas gerados pelos nossos próprios dominantes ? Não são eles, pela força das suas pulsões, os assassinos dos seus próprios filhos ? Não são responsáveis pela morte de uma quantidade enorme dos seus congéneres ?
Estamos bem longe do comportamento das baleias, dos golfinhos, dos elefantes. Mamíferos superiores desprovidos de violência para com os indivíduos da sua espécie.
A lei por si só não pode portanto resolver o problema da negação do outro. É uma questão de mudança de valores e de abertura de consciência. Para isso, será necessário fazer passar a moral universal, os valores humanos e o amor ao outro, antes da lei do mercado.
Texto datando do início dos anos 2000
moral
Ce n'est pas une utopie. C'est une trajectoire déjà visible, inscrite dans l'histoire depuis le premier primate. Lentement. Imparfaitement. Mais dans une direction.
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