A visão ultramaterialista conduz ao melhor e ao pior.Desde o início dos anos 80, uma atmosfera muito mais agressiva do que na década (hippie) precedente parece ter invadido a sociedade humana. A expansão da violência, do comunitarismo, da ideia de «choque das civilizações» parece ser uma das características das atuais décadas globalizadoras.
Para alguns, os responsáveis são a procurar do lado das espiritualidades.
Outros fazem recair a maior parte das responsabilidades sobre o neo-liberalismo, o mercado e os seus satélites (políticos, media) como fazemos frequentemente aqui.
E se o problema não fosse, em sentido estrito, nem liberal nem espiritual ? Se fosse o fruto de falsos liberais e de falsos religiosos ? De materialistas niilistas e de niilistas religiosos ?
Vamos tentar argumentar este ponto de vista.
Por niilismo materialista entendo a incapacidade de dar um sentido profundo ao mundo, a impossibilidade de compreender a essência das doutrinas (liberalismo) inventadas pelos pensadores da humanidade. Estes falsos liberais escolhem o liberalismo não pelo bem do maior número como foi sem dúvida o caso dos pais fundadores desta ideologia, mas pelo seu bem próprio. Não atribuem nenhum valor à ética, à moral, à lei. Transgridem-nas ou manipulam-nas sem escrúpulos. Submetem-se a elas não por convicção, mas quando não podem fazer de outro modo. Abusam dos seus congéneres, utilizam-nos em seu proveito quando podem fazê-lo sem receio.
A estes oporei o idealista niilista. Este estado de espírito não acredita em Deus mas tem fé na humanidade. Pensa intuitiva ou intelectualmente que ela tem um sentido. Coloca os grandes valores humanos (a ética, a moral, a fraternidade, a igualdade, a justiça, a liberdade e o amor ao outro) acima da sua pessoa e age em conformidade. É o justo, o íntegro, o respeitoso.
Por niilista religioso entendo aquele que considera a sua religião de um ponto de vista clânico. Só retém dela certos dogmas à sua conveniência. Quando lê os livros sagrados, é ao primeiro grau, sem sentir a sua divina inspiração e sem captar plenamente as suas metáforas. Ignora o próprio sentido da busca espiritual e obedece às ordens iníquas de certos chefes religiosos.
A este oporei o verdadeiro religioso. O hinduísta, o judeu, o budista, o cristão, o muçulmano, o animista verdadeiramente apaixonado pelo misticismo e que respeita naturalmente as outras religiões. Todo o espiritual que captou o sentido profundo dos livros sagrados recusa toda a violência. Não pode admitir a iniquidade, o racismo ou o abuso do outro.
Vemo-lo. Há espirituais ateus, e religiosos sem crença. Ser um ser espiritual não tem nada a ver com o deísmo ou o ateísmo. É antes de tudo uma questão de abertura de consciência.
Há 200 anos a vaga niilista foi um grande fator de progresso social e técnico. Libertou-nos de certos obscurantismos religiosos. Reconciliou o prazer com o homem construtor (o prazer está mais bem adaptado do que a felicidade para recompensar a ação). Ao mesmo tempo, este niilismo materialista coloca um problema. Se já não teme ser julgado no além nem na terra (porque está acima das leis, por exemplo), pode tornar-se um verdadeiro monstro para a humanidade. Se a sua consciência do outro é estreita, a sua moral deficiente e as suas pulsões todo-poderosas, há grande probabilidade de maltratar a humanidade.
Foi o caso dos criminosos envolvidos nas duas grandes correntes niilistas do século passado : nazismo e comunismo (não confundir — explico porquê noutro capítulo). É o caso de todos os ditadores passados e presentes. É igualmente o caso, por certos lados, do mercado atual e da sua plutocracia mundial.
O homem vazio de verdadeira espiritualidade pode verter na mais sórdida das bestialidades. Tivemos múltiplos exemplos ao longo das eras, da parte dos niilistas laicos ou religiosos.
texto escrito por volta de 2000
Ce n'est pas une utopie. C'est une trajectoire déjà visible, inscrite dans l'histoire depuis le premier primate. Lentement. Imparfaitement. Mais dans une direction.
☀️ Découvrir le fondement