O inato e o educadoA construção mental que permite ao homem considerar o outro como um fim (de ter empatia e piedade por ele) está sem dúvida já edificada no homem, como pensava Jean-Jacques Rousseau. Por outras palavras, a capacidade de amar viria do nosso fundo mesmo. Da nossa constituição íntima (todos os bebés mamíferos são aptos à afeição para com todas as outras espécies).
A educação está lá para permitir a esta capacidade de amar sair do seu narcisismo inicial. Por isso, adquire valores como a bondade, a simpatia, o altruísmo, etc. No entanto, a educação é igualmente responsável por todos os mecanismos que nos tornam capazes de abusar do outro. É ela que mantém um indivíduo no seu narcisismo infantil com toda a incapacidade que este estado primário comporta, como a de ignorar o outro quando é julgado subalterno. São igualmente as formas educativas que desenvolvem em certas crianças tendências para o elitismo discriminante, para a agressividade, o egoísmo, o machismo, etc. É a educação ainda que impede progressivamente a espontaneidade infantil de ir oferecer e procurar amor no outro. Uma espontaneidade que existe igualmente na natureza.
O leãozinho é educado para a caça pelos seus pais, ensinam-lhe a ter cuidado com os outros. Mas, criado no meio dos homens e das suas presas originais (por exemplo com bebés gazelas), a sua natureza predadora expressar-se-á com muito menos densidade.
Que exista ainda na criança como no leãozinho um instinto original (predação, dominação, etc.) parece certo. Que este instinto, relativamente suavizado por milhares de anos de cultura, necessite todavia no homem de um dique educativo para que represente o menos de perigo possível — certamente; mas este instinto não porta em si nenhum dos germes do que chamamos a perversidade, a crueldade, o mal.
Na natureza, predação, dominação, copulação são instintos necessários à sobrevivência do indivíduo e do grupo e em nenhum caso se desenrolam de forma perversa ou desnaturada.
Se o instinto é o terreno no qual vem crescer o que chamamos o mal, a verdadeira dimensão do mal é inteiramente construída pela cultura e pela educação.
É aos maus-tratos infantis, às carências afetivas, às deficiências educativas, éticas e morais, ao sentimento de impunidade, à perigosidade do mundo e aos valores veiculados pelos pais e pela sociedade, que se deve o mal na sua forma extrema — por outras palavras a perversidade, a crueldade, a desumanidade.
É portanto pensável crer que uma educação conveniente, sem carências afetivas, num mundo pacificado, liberto da competição feroz, e que escolhesse a fraternidade universal e o amor ao próximo como valores fundamentais, aniquilaria de um golpe toda a possibilidade de negação e de crueldade para com o outro (e progressivamente, vamos em direção a este tipo de educação).
Evidentemente, o mundo assim descrito pode parecer utópico. Exigiria uma coesão humana perfeita, uma paz universal e um mundo sem perigo.
Mas para a teoria aqui presente, é esta utopia que pouco a pouco e penosamente a humanidade está a elaborar.
ano 2001
Ce n'est pas une utopie. C'est une trajectoire déjà visible, inscrite dans l'histoire depuis le premier primate. Lentement. Imparfaitement. Mais dans une direction.
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