
Na sociedade dos primates naturais em geral, o outro parece, na maior parte das vezes, considerado como um objeto. Um instrumento que se utiliza para os próprios fins. Uma ferramenta que se teme ou que se domina, que se espoleia, que se abusa ou que se cobiça. Tudo gira em torno da constituição ou do reforço das hierarquias.
O homem, parece-me, adquiriu a capacidade e tem a incumbência de inverter este princípio natural. As grandes espiritualidades foram as primeiras pioneiras desta mudança de valor. É graças a elas que hoje consideramos o homem como uma parte do divino. A filosofia sofisticou (e sofistica ainda) este ponto de vista.
Para a evolução, o homem é um meio. Para si mesmo, deve ser um fim. É na consciência moral que o homem constrói a capacidade de considerar o outro como um fim. A consciência primitiva (na qual florescem os instintos e as pulsões) instrumentaliza automaticamente tudo o que toca. Esta consciência percebe naturalmente o outro como um objeto. O homem deve portanto superar os seus instintos e as suas pulsões, hissar-se ao nível da consciência moral, para poder perceber o outro na sua plenitude. Considerá-lo através da sua verdadeira dimensão espiritual.
No mundo dos primates, coloco a espécie humana à parte (à parte, mas não acima). Segundo eu, somos a única espécie capaz de aceder conscientemente à consciência espiritual e ética das coisas. À consciência moral. E esta amplitude de consciência evolui conjuntamente ao desenvolvimento da humanidade.
O percurso natural da consciência do indivíduo nasce num narcisismo quase total (o do lactente). Depois, submetido à pressão do ambiente, este narcisismo humaniza-se, adquire progressivamente aptidão para respeitar o outro, trocar, escutar, e acaba por diminuir para dar lugar ao altruísmo, à generosidade, ao dom da transmissão (os do velho tornado sábio).
É pelo menos o caminho mais lógico, que a vida ensina em silêncio e pelo exemplo.
A consciência moral geral da humanidade está, ela também, em evolução na história. Era, por exemplo, diferente em aristocracia e em república. Depende do nível de conhecimentos adquiridos pela humanidade. A consciência do outro, na época do tráfico de escravos, já não tem nada a ver com a consciência na era de Hubert Reeves, de Pierre Bourdieu e de Yves Coppens.
Depende igualmente das condições geopolíticas do momento. Por exemplo, num mundo tenso e comunitarista como hoje, a consciência moral e a consciência do outro podem retrair-se sob o peso do elitismo.
Depende finalmente do sistema dominante e dos valores que difunde.
A consciência do outro não é a mesma na época do estado-providência e na época atual.
Em todo o caso, apesar dos recuos parciais e pontuais da humanidade, a consciência humana parece evoluir de forma progressiva (uma evolução extremamente lenta que o tempo de uma vida de homem não pode perceber).
Mesmo que hoje, sob o império do mercado, o homem tenda a instrumentalizar tudo o que se move, o desenvolvimento fulminante da Internet desenvolve e liga paralelamente sempre mais os sujeitos.
ano 2001
Ce n'est pas une utopie. C'est une trajectoire déjà visible, inscrite dans l'histoire depuis le premier primate. Lentement. Imparfaitement. Mais dans une direction.
☀️ Découvrir le fondement