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O mundo face ao abuso do outro
Mécanique Universelle — versão portuguesa

O mundo face ao abuso do outro

Os poderosos e o povo

Mudar o mundo.

Cheri Samba artiste africain

Amar o mundo tal como é em vez de o desejar à nossa conveniência propõe-nos Espinosa. O mundo é sempre conforme ao que deve ser no instante presente, certamente, mas isso não nos impede de desejar mudá-lo (é aliás a nossa permanente insatisfação que lhe permite evoluir).
A natureza predestinou o homem à vida social, quis o trabalho comum, diz Bergson.

Passar progressivamente do modo egoísta, clânico, egocêntrico e predador que conhecemos hoje para um mundo osmótico e universal, é antes de mais uma questão de valores a privilegiar. Os media poderiam muito bem realizar esta proeza pois conseguiram em algumas décadas universalizar a Coca-Cola ou o McDonald's. Temos hoje os meios de globalizar a universalidade, o respeito pelo outro e a solidariedade...

A atitude do poder ocidental face ao abuso do outro é completamente injusta e ansiogénica.

  • De um lado, o mercado mercantiliza o humano e desenvolve as nossas tendências abusadoras (sede de riqueza, de dominação, de excessos, etc.). Estas tendências desvalorizam forçosamente a nossa consciência do outro e obrigam uma parte da humanidade a transgredir para aceder a estes novos desejos (luxo, poder... etc).
  • Do outro, o sistema tenta reabsorver estas transgressões encarcerrando cada vez mais a parte pobre da humanidade, deixando ao mesmo tempo a parte rica dos transgressores usufruir de uma quase-impunidade.

Este princípio iníquo institui o encarceramento e o abuso do outro como valores — e as estatísticas mostram-nos que é exponencial. Se é exponencial apesar do encarceramento desmesurado praticado, e se não nos decidirmos a refletir seriamente sobre as causas reais destas transgressões exponenciais, encontramo-nos com duas saídas :

  • A subida para um totalitarismo puro (do tipo ditadura) ou larvado (do tipo americano atual).
  • Ou o retorno à lei da selva observado hoje na maior parte do mundo devastado pela violência, a impunidade e certos valores absurdos do liberalismo.

Nos dois casos, os povos pagam o preço deste laxismo perpetrado pelos media e pelos intelectuais face à predação dos dominantes.

Fazer evoluir os valores

A lei por si só não pode impedir o abuso do outro. Vemos bem que há cada vez mais leis que se supõe proteger o indivíduo — e no entanto, desde que o mercado tomou o poder, o abuso do outro, mesmo que passe progressivamente de físico a intelectual, está em expansão no mundo.

Várias coisas são a causa :

  1. Os «desejos» propostos pelo mercado obrigam o povo a transgredir os seus tabus, a sua moral, a sua ética ou as suas leis para os poder atingir.
  2. O próprio princípio do liberalismo, que não só gera cada vez mais dominantes, mas os condena a enriquecer-se cada vez mais à custa dos dominados.
  3. O homem, se não for acompanhado de uma moral, tende a transgredir instintivamente a lei.
  4. Por outro lado, a lei ainda não é perfeita (o que faz com que indivíduos aproveitem as suas lacunas para abusar e negar o outro permanecendo na legalidade).
  5. E finalmente, a lei, ainda injusta (apesar de evoluir para a justiça), protege a parte da população abusadora que detém um certo poder.

Tomemos um exemplo

A lei proíbe agora de fazer do outro um escravo. E efetivamente a escravatura, sob as suas formas antigas, está praticamente abolida em todo o planeta. No entanto, o mercado atual, direta ou indiretamente, mantém uma espécie de escravatura larvada no terceiro mundo. Emprega seres humanos a salários de sobrevivência, em condições lamentáveis e com um manifesto falta de respeito.... Estas práticas são moeda corrente para os industriais ocidentais que aproveitam a desregulação e a penúria de leis. Kant escreve que o homem mau é aquele que se engana sobre as suas verdadeiras intenções e as julga justificadas porque a sua conduta exterior não contradiz a lei moral.

Outro exemplo

Certos sistemas sem escrúpulos, para vender os seus produtos, não hesitam em sobre-endividar a parte vulnerável da população. Não se afastam contudo da legalidade. Mas para poder agir assim, é necessário ter a capacidade de permanecer hermético à existência profunda do outro. É necessário ter suficiente má-fé para abafar a sua consciência moral. Em geral faz-se com argumentos do tipo : se não for eu a fazê-lo, outro o fará no meu lugar !

Hoje, este sistema criou mesmo escolas especializadas para ensinar a manipulação do outro para fins mercantis. Cursos onde psicólogos ensinam como vender «violentando» a vontade dos consumidores. Os psicólogos que aceitam utilizar o seu conhecimento para estes fins têm uma pesada responsabilidade.

A incapacidade de ver o outro

Aprender a ver o outro.

Do falta de respeito benigna até à tortura, toda a negação da pessoa decorre da incapacidade de perceber a dimensão humana do outro. Utilizamos muitas vezes o outro como um objeto para satisfazer as nossas tendências (dominação, acumulação de privilégios, etc.).

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Ce n'est pas une utopie. C'est une trajectoire déjà visible, inscrite dans l'histoire depuis le premier primate. Lentement. Imparfaitement. Mais dans une direction.

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