
Amar o mundo tal como é em vez de o desejar à nossa conveniência propõe-nos Espinosa. O mundo é sempre conforme ao que deve ser no instante presente, certamente, mas isso não nos impede de desejar mudá-lo (é aliás a nossa permanente insatisfação que lhe permite evoluir).
A natureza predestinou o homem à vida social, quis o trabalho comum, diz Bergson.
Passar progressivamente do modo egoísta, clânico, egocêntrico e predador que conhecemos hoje para um mundo osmótico e universal, é antes de mais uma questão de valores a privilegiar. Os media poderiam muito bem realizar esta proeza pois conseguiram em algumas décadas universalizar a Coca-Cola ou o McDonald's. Temos hoje os meios de globalizar a universalidade, o respeito pelo outro e a solidariedade...
A atitude do poder ocidental face ao abuso do outro é completamente injusta e ansiogénica.
Este princípio iníquo institui o encarceramento e o abuso do outro como valores — e as estatísticas mostram-nos que é exponencial. Se é exponencial apesar do encarceramento desmesurado praticado, e se não nos decidirmos a refletir seriamente sobre as causas reais destas transgressões exponenciais, encontramo-nos com duas saídas :
Nos dois casos, os povos pagam o preço deste laxismo perpetrado pelos media e pelos intelectuais face à predação dos dominantes.
A lei por si só não pode impedir o abuso do outro. Vemos bem que há cada vez mais leis que se supõe proteger o indivíduo — e no entanto, desde que o mercado tomou o poder, o abuso do outro, mesmo que passe progressivamente de físico a intelectual, está em expansão no mundo.
Várias coisas são a causa :
A lei proíbe agora de fazer do outro um escravo. E efetivamente a escravatura, sob as suas formas antigas, está praticamente abolida em todo o planeta. No entanto, o mercado atual, direta ou indiretamente, mantém uma espécie de escravatura larvada no terceiro mundo. Emprega seres humanos a salários de sobrevivência, em condições lamentáveis e com um manifesto falta de respeito.... Estas práticas são moeda corrente para os industriais ocidentais que aproveitam a desregulação e a penúria de leis. Kant escreve que o homem mau é aquele que se engana sobre as suas verdadeiras intenções e as julga justificadas porque a sua conduta exterior não contradiz a lei moral.
Certos sistemas sem escrúpulos, para vender os seus produtos, não hesitam em sobre-endividar a parte vulnerável da população. Não se afastam contudo da legalidade. Mas para poder agir assim, é necessário ter a capacidade de permanecer hermético à existência profunda do outro. É necessário ter suficiente má-fé para abafar a sua consciência moral. Em geral faz-se com argumentos do tipo : se não for eu a fazê-lo, outro o fará no meu lugar !
Hoje, este sistema criou mesmo escolas especializadas para ensinar a manipulação do outro para fins mercantis. Cursos onde psicólogos ensinam como vender «violentando» a vontade dos consumidores. Os psicólogos que aceitam utilizar o seu conhecimento para estes fins têm uma pesada responsabilidade.
Do falta de respeito benigna até à tortura, toda a negação da pessoa decorre da incapacidade de perceber a dimensão humana do outro. Utilizamos muitas vezes o outro como um objeto para satisfazer as nossas tendências (dominação, acumulação de privilégios, etc.).
Ce n'est pas une utopie. C'est une trajectoire déjà visible, inscrite dans l'histoire depuis le premier primate. Lentement. Imparfaitement. Mais dans une direction.
☀️ Découvrir le fondement