Um emplastro regressivoPara o ultra liberalismo, o abusado deve aprender a defender-se do abusador. A proposta fala por si mesma. Os dominantes são portanto incapazes de modificar o seu comportamento. Tentam contornar o problema ensinando à parte pacífica e ingénua da população como se defender num mundo de selvagens.
Em vez de fazer emissões para moralizar o mercado, os media elaboram programas para tornar maliciosa e combativa a parte doce e cândida da população, para lhe fazer perder a ingenuidade.
A lógica quereria pelo contrário que se educasse os primeiros a não mais abusar da população vulnerável, a fim de que a humanidade possa tender para sempre mais humanidade.
Com efeito, para evoluir para uma sociedade cada vez mais humana, tratar-se-ia de trabalhar sobre o dominante (como a democracia o sugere) e não de elevar a humanidade pacífica ao seu estado de espírito agressivo e regressivo.
Não se trata de ensinar ao homem como sobreviver cada vez melhor num mundo de selvagens, mas de tornar a nossa humanidade cada vez mais humana.
Quanto mais a população frágil sofre, mais o mundo está nas mãos dos dominantes. O grau de sofrimento da população vulnerável pode servir de escala para saber a que distância estamos da ordem selvagem. Na natureza, os animais frágeis, os fracos e os pequenos servem de presas. O princípio democrático inverte este estado de coisas — atribui a soberania ao povo, por essência mais frágil.
Hoje, sob o reinado do liberalismo e do mercado, o povo serve de presa ou de utensílio aos dominantes. Estamos portanto num sistema totalmente antidemocrático.
Neste tipo de evolução violenta e inconsciente imposta pelo liberalismo, a população sensível é simplesmente assassinada ou empurrada para o suicídio.
Os estados são cada vez menos capazes de proteger a população sensível dos predadores. Podemos interpretar isso como um retorno da espécie humana às leis da natureza.
Se o homem justamente abandonou o mundo animal, é antes de mais para romper com as leis injustas da natureza.
A capacidade de proteger o vulnerável dos seus predadores diferencia o homem do animal. Não é uma qualidade menor — pois não esqueçamos que é graças a esta população sensível (os xamãs, os profetas, os artistas...) que a humanidade desenvolveu a sua consciência, a sua humanidade e o seu contacto com o divino.
Entre os leões, um terço dos leõezinhos é exterminado pelos seus próprios dominantes que perpetuam estes assassinatos para se acasalarem com as fêmeas.
Que dizer então da guerra, da violência, dos assassinatos por pessoas interpostas gerados pelos nossos próprios dominantes, responsáveis pelo seu psiquismo bestial pela morte de uma quantidade enorme dos seus congéneres ?
Estamos bem longe do comportamento das baleias, dos golfinhos, dos elefantes — mamíferos superiores que já não portam qualquer violência para com os indivíduos da sua espécie.
A lei por si só não pode portanto resolver o problema da negação do outro. É uma questão de mudança de valores e de abertura de consciência. Para isso, é necessário fazer passar a moral universal, os valores humanos e o amor ao outro, antes da lei do mercado.
escrito em 2000
Ce n'est pas une utopie. C'est une trajectoire déjà visible, inscrite dans l'histoire depuis le premier primate. Lentement. Imparfaitement. Mais dans une direction.
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