A filosofia, no seu conjunto, recusa-se a validar o direito do mais forte ; poderia definir-se como a passagem da violência à razão. Georges Gusdorf
O contributo do mundo médico para a espécie humana é incontestável (o mesmo se pode dizer, evidentemente, do mundo científico). O prolongamento da esperança de vida, o tratamento da dor, o cuidado das doenças são alguns exemplos dos seus benefícios, e o seu empenho humanista não precisa de ser demonstrado.
No entanto, o mundo médico, como todas as outras disciplinas, necessita de críticas. Precisa de salvaguardas, de chamadas à ordem para evitar os desvios. Pois é evidente que, como todas as corporações, a medicina tem os seus transgressores. Tem os seus corruptos, os seus cúpidos e os seus inconscientes (sobretudo num momento histórico de fraca ética, em que explodem os valores mercantis do mercado). Sem crítica, esta bela corporação pode então perder de vista a essência da sua vocação e o sentido profundo dos seus atos.
Como uma maré inexorável e invisível, a incrível força corruptora do mercado está em ação. A sua censura de veludo e as suas luzes cintilantes são capazes de atrair as asas das vocações e de as queimar. O mercado sabe transformar flamejantes borboletas em lagartas vulgares. Há algumas décadas, corrompe todas as corporações que toca (jornalismo, política, medicina). E lança sobre a humanidade uma atmosfera bastante patética e desmoralizante.
Este capítulo é resolutamente crítico — e portanto injusto.
Visa, pelo excesso, iluminar formas de pensar opostas a toda a moral humana. Formas de agir incompatíveis com a consciência e a ética que temos o direito de esperar das nossas elites.
Antes de mais, recordemos uma das ideias mestras da nossa teoria : a humanidade é a melhor possível no momento presente, sendo ao mesmo tempo perfectível. A inconsciência e a venalidade pontuais de que uma parte da ciência e da medicina dão provas hoje têm portanto um sentido. Têm uma utilidade para a humanidade (mesmo que esse sentido pareça ainda escapar à nossa perspicácia).
A degradação das corporações éticasO que se paga tem pouco valor — eis a crença que cuspiria na face dos espíritos mercantis. Friedrich Nietzsche
Há algumas décadas, parece que uma parte considerável dos médicos coloca o pecuniário à frente da vocação. Nesse mesmo período, os media passaram para a esfera do mercado. O resultado : as reportagens versam muito mais frequentemente sobre a promoção do mercantilismo médico do que sobre os médicos éticos (a promoção da cirurgia estética, por exemplo).
Os media dão assim os destruidores de Hipócrates como exemplo ao conjunto da sua corporação, em vez de lhe mostrar a sua parte mais nobre e mais moral (a medicina altruísta). E progressivamente, uma grande parte do mundo médico acompanha o ritmo do liberalismo. Orienta-se para o elitismo, o lucrativo e o segregativo.
O desvio ultraliberal está na origem de verdadeiros escândalos — como o desses cirurgiões capazes de colaborar com as máfias para retirar sem escrúpulos órgãos a miseráveis para os vender a abastados. (Compreendemos por isso que certos filósofos preconizem não deixar a nenhum homem a capacidade de se tornar suficientemente rico para comprar outro. Rousseau). Este tipo de atitude reintroduz no espírito humano uma nova visão eugenista. Uma visão que se acrescenta à forma como os media tratam por vezes certos humanos pobres ou estrangeiros como se não tivessem nenhuma importância.
Relativamente ao eugenismo, a civilização ocidental é herdeira de Esparta : os filósofos gregos gabaram a «sabedoria» das suas leis que não permitiam às crianças recém-nascidas sobreviver se não satisfizessem os cânones fixados por uma comissão de eugénica. Observou-se desde então que, no «milagre grego», Esparta não desempenhou nenhum papel e que o seu destino, mesmo no plano puramente militar, foi apenas um pouco mais brilhante do que o de Atenas e muito menos do que o da Macedónia (ou de Roma), que não tinham tomado nenhuma medida deste género. (Universalis)
Da vocação de curar... ao desejo de enriquecer
Ai da ciência que não se volta para o amor.
Maltratar a sua vocação acrescenta peso à alma.
O rolo compressor do mercado difundiu a atração pelo mercantil ao conjunto da humanidade.
Uma parte da medicina deixou-se apanhar pelos valores venais com uma facilidade desconcertante (mas tão humana). Joga o seu jogo em vez de criticar com veemência certas atitudes do mercado para reconduzir esta mercantilização do ser humano a um nível decente (pois o meio médico conhece bem os estragos desta mercantilização sobre a população vulnerável). Arrastados, como a maioria de nós, na vertigem geral, alguns perdem progressivamente de vista a sua verdadeira missão, a sua ética e o seu poder crítico.
Mas na sua grande maioria, as corporações dos médicos e dos investigadores são das mais éticas e representam um dos últimos baluartes face à desumanização crescente do indivíduo.
Texto escrito por volta do ano 2000
Se um homem reconhece que há coisas belas, mas não acredita na existência da beleza em si e se mostra incapaz de seguir aquele que lhe queria dar o conhecimento disso — crês tu que viva realmente, ou que a sua vida não seja senão um sonho ? Platão, A República
Ce n'est pas une utopie. C'est une trajectoire déjà visible, inscrite dans l'histoire depuis le premier primate. Lentement. Imparfaitement. Mais dans une direction.
☀️ Découvrir le fondement