A aliança da ciência e do mercadoNotaram que se diz um bife de bovino, uma costeleta de bovino, um assado de bovino... mas assim que o gado parece suspeito, é a vaca que fica louca. Guy Bedos
Para uma boa evolução da humanidade, certas associações deveriam desencadear uma forte vigilância. É o caso das alianças mercado/educação, política/media, mercado/religioso, mercado/justiça.
É igualmente o caso das combinações entre a ciência e a indústria. Sem uma poderosa vigilância, este assortimento pode conduzir a verdadeiras monstruosidades. É por isso que, a meu ver, desde o início, o ensino das ciências deveria acompanhar-se de uma educação de fundo nos grandes valores humanos (um ensino de ética que deveria também concernir os media, o mercado e a política).
Sem uma presença efetiva da consciência e dos valores humanos no espírito das ciências, engendraremos inevitavelmente incríveis aberrações. Mais de 100 anos depois de Auguste Comte ter podido escrever : «a classe dos engenheiros será sem dúvida o agente direto e necessário da coligação entre os sábios e os industriais pela qual só poderá começar diretamente o novo sistema social», é ainda difícil regozijarmo-nos com isso.
Pelo contrário, a aliança entre as ciências e o mercado*, se tem também do positivo, coloca cada vez mais problemas à humanidade.
* pois são dois tipos de caracteres pragmáticos, racionais e fracamente espiritualizados. Seria portanto necessário associar-lhes o olhar espiritual do filósofo ou do religioso para equilibrar as suas reflexões.Para evoluir para um futuro apaziguado, estes grandes atores do momento deveriam rodear-se de seres humanos fortemente espiritualizados (do filósofo até aos sábios dos povos primeiros).
O mundo torna-se cada vez mais pontual e automatizado. Para evitar o máximo de desapontamentos, a criatividade deveria portanto, a meu ver, banhar na consciência e na ética. Sem impedir evidentemente a criação de exprimir plenamente o seu temperamento contestatário e subversivo.
O peso da crueldadeO que se observa há algumas décadas :
A indústria niilista*, sobrecarregada por uma competição amoral, perdeu de vista a dimensão espiritual do vivente.
* niilista no sentido em que já não considera o humano como uma ontologia, um ser sensível, pertencente ao princípio criador e a respeitar absolutamente.A partir daí, confunde o vivente com o objeto e imagina estratégias aberrantes como as farinhas animais ou a criação cruel (cruel na medida em que a criação intensiva não tem em conta a natureza «sociável» dos animais).
A aberração das farinhas animais, minerais e de síntese, tem uma grande parte de responsabilidade no aparecimento da encefalopatia espongiforme. Mas a meu ver, a tortura tem igualmente a sua parte de responsabilidade. A crueldade sofrida pelos vitelos desde os inícios da criação intensiva tem sem dúvida uma influência neste transtorno cerebral. Curiosamente, esta possibilidade parece não ter sido entrevista pelo mundo científico. No entanto basta refletir sobre as condições de isolamento de que são vítimas os animais criados em bateria para compreender que há com que enlouquecer qualquer animal social (do qual o homem faz parte).
Imaginemos por um instante um pequeno vitelo isolado da sua mãe alguns dias após o seu nascimento. Um animal que se encerra num espaço reduzido. Sem contacto maternal. Sem conhecer a luz do dia. Sem relações sociais nem afetivas com o mamífero homem, seu proprietário... Imaginai este ser vivo impedido de exprimir as suas emoções e os seus sentimentos a congéneres de que é separado por grades de ferro. Um ser vivo a quem se proíbe de brincar, de jogar com os seus semelhantes. Um animal social que se separa desde o nascimento da presença tranquilizadora da sua mãe. Um animal muitas vezes torturado para não perturbar o sistema de produção. Não há aí razões suficientes para conduzir um cérebro mamífero à loucura ? (e verossimilmente não só os mamíferos).
A vaca, o vitelo, o porco, todos os animais domesticados, são mamíferos socializados — sabemo-lo há muito tempo. Precisam de contacto e de afeto com os seus congéneres ou com os homens. Imaginai por exemplo que se separa da sua mãe um bebé humano alguns dias após o nascimento. Que se o priva a partir daí de todo o contacto social até à sua adolescência (é o princípio da criação intensiva). Não desenvolveriam sérios problemas psicológicos ? Imaginai agora que, utilizando a procriação artificial, se transmitem estas patologias psíquicas de geração em geração, durante 50 ou 60 anos... Esta loucura não se transformaria então em problema neurológico genético ? Em loucura genética ?
E a inconsciência do mundo agro-alimentar continuou o seu processo :
Num mundo corretamente humanizado, este mecanismo deveria suscitar uma indignação e profundas reflexões.
No entanto, sob o império deste novo liberalismo todo-poderoso, esta humanidade passa depois das contingências do mercado. Críticas e reflexões são portanto afastadas sob pretexto de que fariam perder empregos e tempo face à concorrência. Perder quotas de mercado nacional... (ao passo que este mesmo mercado lança sem complexos milhares de indivíduos no desemprego, assim que uma máquina pode tomar o seu lugar). Esta censura de veludo priva a humanidade de uma reflexão sobre o assunto. Impede-a de tirar realmente lições dos seus erros. A nossa consciência, totalmente atrofiada por media demasiado complacentes com este ultraliberalismo, já não consegue apreender a demência desta exterminação em círculo. Uma exterminação derivando da nossa perda de consciência do que é realmente o vivente.
A omnipotência do mercado coloca um problema idêntico à medicina. De certa forma, «proíbe» ao mundo médical condenar um sistema responsável por novas patologias. Patologias* declinando diretamente das condições de vida impostas pelo mercado.
Assim a medicina trata os danos causados por um sistema, quando deveria revelar a causa (o sistema em si mesmo). É como se um médico tratasse todas as consequências físicas de um alcoólico sem nunca o encorajar a parar de beber.
Escrito de 2001
Ce n'est pas une utopie. C'est une trajectoire déjà visible, inscrite dans l'histoire depuis le premier primate. Lentement. Imparfaitement. Mais dans une direction.
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