O guarda-redes da humanidadePor volta de 1870, o primo de Darwin, Francis Galton, funda a Eugénica científica, cujo objeto, segundo ele, deve ser duplo : travar a multiplicação dos inaptos e melhorar a raça favorecendo a reprodução dos mais aptos. Jean Rostand
A multiplicação contra natura e cada vez mais rápida dos fracos de espírito e dos doentes psiquiátricos, à qual se acrescenta uma diminuição constante dos seres superiores, económicos e enérgicos, constitui um perigo para a nação e para a raça que não se pode subestimar... Parece-me que a fonte que alimenta esta corrente de loucura deveria ser cortada e condenada antes que decorresse um novo ano. Winston Churchill
Desejaria muito que se impedisse inteiramente as pessoas de categoria inferior de se reproduzir, e quando a natureza malfazeja destas pessoas é suficientemente manifesta, medidas deveriam ser tomadas nesse sentido. Os criminosos deveriam ser esterilizados e deveria ser proibido às pessoas fracas de espírito ter descendência. Theodore Roosevelt
Eis dois tipos de discursos eugenistas proferidos por dois grandes nomes da política mundial em 1910 e 1913.
São emblemáticos de uma corrente ancestral. Uma corrente racionalizada pelo século XIX e prolongando-se até à segunda guerra mundial com as monstruosidades que se sabe.
Evidentemente não devemos confundir o eugenismo racista, deliberado e militante, com o eugenismo de um Churchill ou de um Roosevelt. Estes últimos provaram depois as suas qualidades humanas e universais. Mostraram o seu coração e o seu desejo de defender os oprimidos... Mas são contudo bem as suas palavras.
Este estado de espírito eugenista deve ser resituado, evidentemente, na sua época. Mas não nos enganemos. O nosso mundo é ainda muitas vezes governado pelos seus descendentes. Evidentemente, o seu estado de espírito já não banha no mais sórdido dos racismos. Mas são elitistas, comunitaristas, narcísicos e encaram o mundo a partir da sua única pessoa ou da sua casta. Erigem o seu ponto de vista em norma e a sua vida como um ideal superior. Sem o exprimir claramente, consideram o proletariado como inferior. E o sub-proletariado, os miseráveis, como supérfluos.
O «mal» diminui, o «bem» progrideQuem preconiza o elitismo encontra um dia ou outro o eugenismo. J-M Tonizzo.
Hoje estas palavras de Churchill e de Roosevelt seriam proibidas. Este tipo de ponto de vista percorre contudo ainda a humanidade.
Uma humanidade elitista e narcísica, que toma a sua pessoa, a sua sociedade, a sua categoria social, como referência da normalidade humana. Cegos pelo seu ego, chegam a considerar o resultado das suas injustiças (pobreza, alcoolismo, desemprego, condições de vida sórdidas) como decorrendo do inato e do atavismo.
Ao nível mundial, estes espíritos autorizam-se a imaginar a colonização ou a pós-colonização como uma normalidade. Um princípio decorrendo de uma superioridade intelectual e genética. No entanto, em relação à altura de consciência atingida pela humanidade, o seu pensamento situa-se ao nível arcaico. A astúcia, o esclavagismo, a manipulação, a submissão pela força são atitudes de outro tempo (mesmo que estas condutas retardatárias tenham ainda curso atualmente, já não estão à altura da consciência da humanidade).
O espírito contemporâneo da maioria humana já está pronto para a troca respeitosa. É apto ao respeito do outro, à justiça, à resolução dos conflitos pela diplomacia. O espetáculo aberrante dos caos que perduram reflete simplesmente a estreiteza de consciência destes dirigentes. Mostra o seu espírito tortuoso... a sua aptidão para usar a violência ou a perversão para vampirizar os espíritos menos tortuosos, menos obsessivos...
A partir destes arcaísmos narcísicos, estas elites estreitas chegam a pensar (sem o exprimir em voz alta) que existem indivíduos inúteis. Humanos a mais. Continentes que merecem bem o seu destino... Estamos aqui perante a mais sórdida inconsciência, se não mesmo de uma abjeta má-fé.
Com efeito, estas pessoas guardam-se bem de refletir sobre as facilidades de que beneficiaram para se tornarem o que são. Evitam comparar a sua infância com a daqueles que julgam «inferiores». Comparar a diferença de nível de ensino recebido. Os meios respetivamente postos em obra. O dinheiro consagrado às duas educações. Guardam-se bem de medir o peso do favoritismo, do compadrio, das relações dos seus pais e do seu meio na sua «realização*». E finalmente, guardam-se bem de refletir sobre a importância real de cada ser humano para a evolução da humanidade.
Pois numa sociedade nepocrática como é a França de hoje, já não são forçosamente os melhores que chegam ao topo.Hoje, o princípio de igualdade de oportunidades soa a vazio no ouvido de milhões de pessoas. Pois, embora inscrito no frontão da nossa República, trata-se para muitos de um princípio e de forma alguma de uma realidade. Relegadas socialmente, concentradas geograficamente, estas pessoas são as esquecidas da igualdade de oportunidades. Há urgência. O elevador social está avariado e, para alguns, já não existe.
Aziz Senni.
Escrito em 2004
Ce n'est pas une utopie. C'est une trajectoire déjà visible, inscrite dans l'histoire depuis le premier primate. Lentement. Imparfaitement. Mais dans une direction.
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