A satisfação mesma da alma, que nasce do conhecimento intuitivo de Deus (Ética IV, Apêndice, cap. 4). Espinoza
Os termos utilizados pela teologia e pela filosofia obedecem aos efeitos de moda. A palavra «beatitude», como o seu significado, não escapa à regra. A filosofia contemporânea, parece-me, fica na superfície quando cruza as reflexões dos filósofos antigos sobre a beatitude. Esta busca parece-lhe mesmo um pouco pueril.
É o que me parece constatar nos estudos contemporâneos dos filósofos antigos cuja obra banha no êxtase como a de Espinoza. Certos pensadores atuais, ao comentar a obra espinosista, parecem minimizar a parte que Espinoza consagrou a este valor. As universidades e numerosos filósofos atuais desviam (a meu ver) o trabalho de Espinoza, para o colar à visão materialista e ateia do momento. Desejam à sua conveniência este pensamento genial, em vez de o restituir tal como foi pensado (para parafrasear a famosa sentença do filósofo holandês).
Para Espinoza, Deus existe. Ele simplesmente alarga o seu envelope e reduz a sua atividade (com razão, parece-me). A meu ver, o panteísmo de Espinoza não reduz Deus à natureza, mas a natureza em Deus. «Deus está em tudo», não quer dizer que já não é nada. Quando Espinoza faz dele a única substância capaz de existir e de agir por si mesma, dá-lhe pelo contrário a omnipotência.
Deus é a Natureza (entre outras coisas) mas não uma natureza qualquer. A natureza no sentido básico do termo. Uma natureza incapaz de existir e de agir por si mesma. Uma natureza que obedece (como nós próprios) a uma potência superior capaz de fazer nascer e morrer as criaturas e o universo. Esta potência é a totalidade sob uma forma infinita e única. É a totalidade das coisas reduzida à sua essência.
Um pouco como quando os físicos dizem que ao final, o universo sólido caberia numa cabeça de alfinete. A essência de Deus seria esta cabeça de alfinete, e o mundo tal como se nos apresenta seria uma ilusão que esta cabeça de alfinete quis constituir por razões que só lhe pertencem a ela.
Para Espinoza, a beatitude não é a recompensa da virtude — ela é a virtude. Resulta do terceiro gênero de conhecimento : o conhecimento intuitivo, em que a mente apreende as coisas sub specie aeternitatis — sob o ângulo da eternidade.
Este conhecimento produz a alegria intelectual mais alta que o homem possa experimentar. É um amor intelectual de Deus — amor intellectualis Dei — pelo qual o homem ama Deus com o amor com que Deus se ama a si mesmo através do espírito humano.
A nossa filosofia pensa que a humanidade caminha lentamente para uma geração beata — não no sentido religioso convencional do termo, mas no sentido preciso de Espinoza : uma humanidade que acedeu ao conhecimento do terceiro género, que vê as coisas na sua essência, que ama sem condição e que já não sofre pelo que não pode controlar.
Esta geração beata não é uma utopia piedosa. É a conclusão lógica de uma trajetória que dura há milénios e de que cada geração, sem o saber, posou mais um tijolo.
Ce n'est pas une utopie. C'est une trajectoire déjà visible, inscrite dans l'histoire depuis le premier primate. Lentement. Imparfaitement. Mais dans une direction.
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