O nosso espírito está perpetuamente no passado ou no futuro — raramente no presente puro. Jean-Marc Tonizzo
A capacidade de se projetar no tempo — de imaginar o futuro, de recordar o passado, de antecipar, de planear, de temer, de esperar — é uma das especificidades tipicamente humanas. É esta faculdade que nos permitiu construir as nossas civilizações, elaborar as nossas ciências, transmitir os nossos conhecimentos de geração em geração.
Mas esta mesma capacidade é o principal obstáculo ao êxtase.
Com efeito, o êxtase é por definição um estado de presença absoluta ao momento. Um estado em que o passado e o futuro já não têm presa sobre o espírito. Em que a mente não procura, não planeia, não recorda, não teme — simplesmente é.
Eis o paradoxo central da nossa filosofia :
O homem precisa da sua faculdade temporal — desta capacidade de se projetar no passado e no futuro — para construir o mundo. Sem ela, nenhuma lei, nenhuma técnica, nenhuma arte, nenhuma transmissão seria possível.
Mas esta mesma faculdade impede-o de aceder ao êxtase — que exige precisamente a suspensão de toda a projeção temporal.
O homem construtor e o homem extático são duas posições incompatíveis. O primeiro elabora o mundo para o segundo. É por isso que a beatitude fácil e acessível a todos pertence ao futuro da humanidade — não ao seu presente.
Os místicos de todas as tradições descrevem o êxtase como um estado em que o tempo parece suspenso ou abolido. Não no sentido de uma duração infinita, mas no sentido de uma presença tão plena que a distinção entre passado, presente e futuro perde o seu significado.
Santo Agostinho escreveu : «O nosso coração está inquieto enquanto não repousa em ti.» Esta inquietude — esta agitação permanente do espírito entre o passado e o futuro — é precisamente o que o êxtase dissolve.
Nos raros momentos em que o homem ordinário acede a uma forma atenuada deste estado — numa paisagem deslumbrante, num momento de alegria intensa, num instante de contemplação pura — experimenta algo que todos reconhecemos : o sentimento de que o tempo parou. De que este momento basta. De que nada falta.
É um vislumbre do que os extáticos descrevem como estado permanente.
A nossa filosofia diz : este vislumbre não é uma aberração. É uma memória do futuro — um eco do que a humanidade se tornará quando as suas estruturas estiverem suficientemente elaboradas para que o homem possa, sem traí-la, soltar o fio do tempo e repousar plenamente no presente.
Ce n'est pas une utopie. C'est une trajectoire déjà visible, inscrite dans l'histoire depuis le premier primate. Lentement. Imparfaitement. Mais dans une direction.
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