A unidade do ser manifesta-se no amor. Émile Durkheim
A felicidade para a qual a humanidade se dirige constitui o escrínio de que gozar é a joia. Mas se, para o homem construtor deste mundo a aperfeiçoar, gozar é um flash ligado ao prazer, para o humano realizado desta humanidade «perfeita», gozar torna-se «êxtase, duradoura e absoluta».
A humanidade dirige-se para a sua perfeição... Tal é o conceito fundamental da nossa filosofia.
Os capítulos precedentes iluminaram os três grandes estaleiros empreendidos intuitivamente pela nossa espécie :
...esta intensa atividade extrai pouco a pouco o homem do reino da natureza para o imergir no de a cultura.
Evidentemente, estes três grandes tipos de atividades não se destinam a si mesmos.
Desde a sua criação, toda a atividade humana trabalha inconscientemente para hissar a nossa espécie em direção a esta felicidade absoluta, a quietude, o equilíbrio e o amor sob a sua forma ideal. O resultado do trabalho atual destina-se principalmente aos nossos descendentes futuros. Permitir-lhes-á entrar facilmente em êxtase — cujos outros nomes são beatitude, o nirvana, o despertar, a ataraxia, a epoché, a alegria, o soberano bem, a felicidade, a bhakti.
Sendo a criação uma pura maravilha de justiça e de benevolência (indistinguível à primeira vista), sendo o êxtase inacessível ao homem construtor, tem direito a recompensas pelo seu trabalho de elaboração... e são os diversos prazeres ao seu alcance e o imenso benefício de se realizar através dele.
E assim podemos dizer : a humanidade está votada a atingir a sua perfeição : o êxtase.
[Deus] tinha feito o homem à sua imagem, mas tinha-o amassado na lama que contém em potência todas as podridões. Pesou-o no entanto com a mesma balança que teria empregado para um espírito puro. Era a verdadeira justiça. O homem, se quiser permanecer no Paraíso, ou entrar nele, deve limpar-se da lama de que é feito. Barjavel
Mas porque intitular este capítulo «felicidade» quando nele falamos essencialmente de êxtase ? Pois justamente para poder englobar a «felicidade superior» (o êxtase) e a felicidade ordinária (os pequenos prazeres). A felicidade absoluta é o objetivo a atingir pela humanidade, as felicidades ordinárias são o seu isco e a sua recompensa.
Num primeiro tempo tentaremos compreender quais são as sensações do êxtase e qual é o seu sentido (sabendo que nenhuma explicação consegue substituir o sentido que ela designa. Há com efeito uma irredutibilidade absoluta entre a verbalização de um sentido e o sentido em si. Entre o êxtase vivido pela carne e a explicação intelectual do mesmo).
Tentaremos recolher o máximo de escritos e de análises religiosas, filosóficas e científicas, relativas ao êxtase. A nossa intenção, evidentemente, será mostrar as suas similitudes e os seus pontos comuns.
Tentaremos igualmente saber porque é tão difícil ao homem «construtor de êxtase» aceder ao êxtase. Porque este estado exige do homem construtor tal sofrimento para o atingir voluntariamente (a ascese, o monastismo, a abnegação, a compressão das pulsões). Porque, durante o tempo da construção humana, o êxtase é a exceção enquanto o prazer é a regra ? Porque, apenas alguns raros sábios atingem voluntariamente, como exploradores divinos, os prazeres subliminiares da beatitude ? Porque finalmente, o maior número deve «contentar-se» com o prazer ordinário como recompensa às suas ações ?
2001
Ce n'est pas une utopie. C'est une trajectoire déjà visible, inscrite dans l'histoire depuis le premier primate. Lentement. Imparfaitement. Mais dans une direction.
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