Sócrates : e a constituição do corpo, não é o repouso e a inação que a destroem, e os exercícios e os movimentos que lhe asseguram longa duração ? Teeteto : sim ! Platão, o Teeteto
Segundo a nossa filosofia, a humanidade está votada a atingir a sua perfeição, a unidade, a paz, a serenidade total, a felicidade absoluta e o êxtase.
Este advento diz respeito aos nossos descendentes futuros.
A humanidade está em evolução. Esta evolução decorre de forma lenta como para a evolução de um indivíduo. Para se tornar adulto, devemos atravessar uma quantidade de períodos criadores. Superar o estádio bebé, a infância, a primeira adolescência, a adolescência, etc. A cada etapa, é necessário aprender a dominar cada vez melhor as nossas pulsões, as nossas tendências.
É a mesma coisa ao nível da espécie. Deve superar gradações incontornáveis ; hissar-se em direção a numerosos níveis de consciência. E como o indivíduo ao crescer, a humanidade deve diminuir progressivamente a influência das suas pulsões. Pulsões herdadas da sua origem primate. E finalmente atingir a sabedoria.
Segundo os filósofos da antiguidade, a felicidade — que tem por summum a beatitude, o nirvana — é a busca de todo o homem.
Segundo os sábios das diversas culturas, no seu summum portanto, este tipo de felicidade basta-se a si mesmo. Por outras palavras, a acesso à felicidade absoluta marca o fim do desejo. O fim de toda a veleidade, incluindo as atividades construtivas.
No entanto, a humanidade, constatamo-lo todos os dias, ainda não atingiu a sua perfeição insuperável — técnica, social, psíquica — nem o seu mais alto grau de conforto mental possível. Não encontrou o seu coroamento ao nível das comunicações, dos transportes ou das relações humanas.
O homem tem portanto ainda necessidade de ações construtoras para acabar de elaborar as suas estruturas. Sem o saber, a globalização concretiza pouco a pouco esta perfeição técnica (mas a globalização, como a tecnologia ou a técnica, não são os cumes a atingir, são apenas as ferramentas da perfeição espiritual que é a concretização da humanidade). O mercado, de forma inconsciente (portanto perigosa) elabora todas as bases técnicas da universalidade.
Para desenvolver as suas estruturas materiais, o homem precisa de tendências, de paixões, de pulsões e de desejos. Deve julgar, desejar, em suma utilizar todos os motores clássicos da ação.
Porque ainda precisamos de agir e de construir, o nosso espírito recusa interessar-se pelo êxtase. Impede-nos de conceber qualquer atração pelo estado puramente contemplativo da beatitude.
O homem nasceu para pensar ; também não está um momento sem o fazer ; mas os pensamentos puros, que o tornariam feliz se pudesse sempre sustentá-los, cansam-no e abatêm-no. É uma vida uniforme à qual não se pode acomodar ; precisa de movimento e de ação, quer dizer que é necessário que seja às vezes agitado pelas paixões, das quais sente no seu coração fontes tão vivas e tão profundas. Blaise Pascal.
Para a maior parte de nós, perder as nossas tendências — agressividade, desejo, julgamento — é sinónimo de morte... A igualdade sinónimo de tédio... O amor puro, sinónimo de ingenuidade... A beatitude sinónimo de embrutecimento... E pensamos que assim será sempre.
No entanto, a consciência humana evolui. Evolui ao mesmo ritmo que o progresso. O espírito humano adapta-se portanto permanentemente ao que lhe é atual. Está sempre em fase com ele... A antiguidade grega nunca teria podido imaginar a igualdade dos sexos, a viagem no espaço ou a interdição da escravatura. É no entanto hoje a nossa realidade. Globalmente, o nosso espírito incorporou perfeitamente estas noções. No futuro, o homem conseguirá portanto superar o olhar negativo que lança atualmente sobre o êxtase. Mas por agora, este receio da beatitude é necessário. É uma espécie de astúcia da razão no sentido em que a entendia Hegel. Um mecanismo que permite dopir a atividade humana.
Evidentemente para o nosso mundo em plena construção, demasiado êxtase seria sem dúvida penalizador. É por isso que um sistema sem agressividade, sem desejos, sem ação, parece totalmente sem interesse e insípido. E é muito bem assim. Mas este estado «ultrapacífico» não o esqueçamos, corresponderá a um mundo inteiramente finalizado. Um mundo perfeitamente adequado para os seres humanos que nele vivem.
Ignoramos ainda tudo desta humanidade futura (é-nos aliás ainda impossível demonstrar se a humanidade evolui ou não para este estado extático). Não sabemos nada do caminho que tomará para aí chegar. Ignoramos tudo das seguranças que porá em prática para proteger os seus beatos sem defesa. Mas a evolução decorre de forma progressiva... Adapta-se a todas as novidades. E nunca se encontrou em desfasamento entre a realidade exterior e a capacidade de lhe fazer face.
Leiamos estas frases de Miguel de Unamuno a propósito do amor como motor da ação. O amor olha e tende para o futuro.
Ce n'est pas une utopie. C'est une trajectoire déjà visible, inscrite dans l'histoire depuis le premier primate. Lentement. Imparfaitement. Mais dans une direction.
☀️ Découvrir le fondement