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Morreremos no extase
Morte e extase - Mecanica Universal

Morreremos no êxtase

A experiência extática

malevitchUma lógica implacável

Todas as grandes filosofias e espiritualidades, quer orientais quer ocidentais, aconselham o homem a praticar a arte de se desprender das coisas materiais e afirmam-lhe que um indivíduo que chegou ao perfeito desapego acede à beatitude, ao êxtase, ao nirvana, a esse estado subliminal que coloca o homem em relação direta com o divino e conduz a uma certa imortalidade.

Numerosos espirituais e filósofos experimentaram este estado. Buda, o sábio Lao Tsé, os filósofos Platão ou Plotino, mas também Moisés, Jesus ou Maomé, são, no meu entender, alguns deles.

O desapego conduziria portanto o indivíduo ao êxtase e o êxtase aboliria o medo da morte, portanto a morte em si, na medida em que a morte só existe pelo medo que inspira — torna-se um acontecimento tão banal como os outros.

A partir desta primeira constatação, debrucemo-nos sobre o momento último da existência, a passagem da vida para a morte.

O largar presa obrigatório do moribundo

Segundo nós, a passagem da vida para a morte obriga o espírito ao desapego. A um certo momento, a consciência do moribundo é obrigada a abandonar a luta pela vida, obrigada a resolver-se a deixar o mundo e tudo o que ele comporta. Cedo ou tarde, a evidência impõe-se: o homem deve forçosamente admitir que é inútil continuar o combate. A um dado momento, o espírito deve apreender que tem de largar presa. Que deve abandonar o jogo e portanto os seus apegos. É a partir deste instante "maior" que o êxtase se impõe.

A morte implica assim o aniquilamento total e forçado do ego.

Dissemos que a extinção do ego (o desapego) mergulha o homem no êxtase. Por dedução, a passagem da vida para a morte (uma vez que inclui este desapego forçado) induz forçosamente uma passagem pelo êxtase. Uma espécie de queda ou elevação nessa sublime dimensão transcendental.

O êxtase mata a morte e faz viver o amor

Este estado de beatitude, de nirvana (já o vimos nos capítulos anteriores), induz duas coisas características:

  • O esquecimento da morte. Por outras palavras, o aniquilamento mental da sua imagem, das suas angústias, da sua inquietação.
  • A emergência íntima de um sentimento de quietude total, de serenidade e de amor absoluto.

Seria portanto no interior deste estado de paz, de amor e de quietude que finalmente deixaríamos o mundo.

Morte psíquica e morte física

A imortalidade que nos descrevem os grandes espirituais à saída das suas experiências extáticas não significa "viver eternamente", mas libertar-se das angústias que a ideia da morte engendra no homem comum. Essas angústias decorrem dos nossos apegos.

Estes apegos são gerados pelo ego. O aniquilamento do ego suprime ao mesmo tempo o medo da morte, portanto a morte em si mesma.

No meu entender, portanto, a vida, na sua grande bondade, faz-nos passar "daqui para o além" sem violência. Sem a imagem da morte e na serenidade. Todo o ser humano, a um certo momento da sua "passagem", ficaria repleto de amor, de alegria e de quietude absoluta.

Conclusão

Do aniquilamento

a morte, uma explicação

A morte do ego

Aniquilar o ego equivale a aniquilar todas as noções relativas à pessoa. Ao aniquilar o ego, o espírito do moribundo esquece o "sujeito" que é. Esquece todas as representações subjetivas que lhe permitiam distinguir-se dos outros indivíduos (posição social, imagem física ou psicológica, etc.). Por outras palavras, quando morremos, o nosso ego ficaria na fronteira do mundo. A nossa personalidade, o nosso carácter não atravessariam para o além.

Sem ego, somos anjos

A morte proíbe ao ego de atravessar a porta do além. O ego diz respeito unicamente ao universo material sensível. É portanto mais verosímil pensar que o além (para aqueles que pensam que o existir não se limita à nossa passagem na terra) seria desprovido de ego e de tudo o que o caracteriza — um lugar composto, de certa forma, unicamente por anjos. O conceito de "paraíso" é portanto perfeitamente coerente (mas não o do inferno).

Ao atravessar a nossa última fronteira, tornaríamos todos anjos. Santos, almas puras, budas, espíritos claros e invadidos de amor.

Assim, o nosso último estado de espírito seria um estado de êxtase, portanto de amor absoluto. Coincidiria então com a natureza íntima daquilo a que chamamos Deus. Deus sendo, para todas as religiões, uma potência de Amor Absoluto. E iríamos portanto encontrar esta potência de amor no mesmo estado de espírito que ela.

ano 2000

Morte e religião

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